Segurança “Estamos vivendo uma epidemia”, relata delegada da DPCAMI, que reforça importância da denúncia e destaca ações de prevenção e combate à violência contra a mulher

“Estamos vivendo uma epidemia”, relata delegada da DPCAMI, que reforça importância da denúncia e destaca ações de prevenção e combate à violência contra a mulher

20/04/2026 - 10h27

Em entrevista ao apresentador Saulo Machado, da Rádio Araranguá, a delegada da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Araranguá (DPCAMI), Eliane Chaves, falou sobre o aumento dos casos de violência contra a mulher e a preocupação das autoridades após a passeata realizada no último sábado pela manhã, em Araranguá. No mesmo dia, faleceu a mulher que havia sido atacada a facadas ao sair de casa, no centro da cidade, caso que segue sob investigação para apurar a motivação.

Durante a entrevista, a delegada classificou o cenário atual como alarmante. “Realmente, eu poderia dizer que nós estamos vivendo uma epidemia. O debate sobre feminicídio ganhou mais visibilidade a partir de 2015, quando o crime passou a ser tipificado de forma específica na legislação brasileira, permitindo identificar melhor os casos e dimensionar o problema”, afirmou.

Crime acontece dentro de casa e muitas vezes diante dos filhos

De acordo com a delegada, o feminicídio é considerado um dos crimes mais complexos de combater, justamente porque ocorre, na maioria das vezes, dentro do ambiente familiar. “A estatística mostra que o lugar menos seguro hoje para muitas mulheres é dentro de casa”, destacou.

Ela explicou ainda que a pena prevista para feminicídio é uma das mais altas do Código Penal brasileiro, podendo chegar a 40 anos de prisão, especialmente quando o crime ocorre na presença de filhos ou familiares.

Apesar disso, o aumento das penas, isoladamente, não tem sido suficiente para reduzir os casos. “Não está resolvendo, até porque é um crime diferente. Muitas vezes o autor mata a mulher e tira a própria vida”, explicou.

Nem toda morte de mulher é feminicídio

A delegada também esclareceu uma dúvida frequente da população: nem toda morte de mulher é classificada como feminicídio.

Segundo ela, o enquadramento ocorre apenas quando o crime está relacionado:

  • à violência doméstica ou familiar
  • ao menosprezo ou discriminação pela condição de mulher
  • a relações afetivas anteriores ou atuais

“Uma mulher morta por razões relacionadas ao tráfico, por exemplo, não é feminicídio”, explicou.

Araranguá não registrou feminicídios em 2025, mas houve tentativas

Mesmo sem registros de feminicídio consumado em 2025 até o momento, a delegada destacou que houve quatro tentativas no ano passado, o que revela o grau de risco enfrentado por vítimas atendidas pelas autoridades. “Tentativa de feminicídio significa que a morte não aconteceu por razões alheias à vontade de quem queria matar”, afirmou.

Ela também destacou que quase 30 prisões foram realizadas por descumprimento de medidas protetivas no município, além de diversas prisões em flagrante efetuadas pela Polícia Militar.

Maioria das vítimas não havia denunciado agressões

Outro dado preocupante citado pela delegada é o alto índice de subnotificação.

Segundo ela:

  • cerca de 65% dos casos de violência doméstica não são registrados
  • aproximadamente 70% das vítimas de feminicídio não tinham medida protetiva

“Quando acontece o feminicídio e a gente vai investigar, muitas vezes não havia nenhum registro anterior”, explicou.

Ciclo da violência dificulta rompimento das relações abusivas

Durante a entrevista, a delegada explicou que muitas vítimas permanecem em relacionamentos abusivos por causa do chamado ciclo da violência, caracterizado por fases repetitivas:

  1. tensão e ameaças
  2. agressão
  3. pedido de desculpas e reconciliação

“Depois da violência vem a fase do pedido de desculpas. Muitas mulheres perdoam considerando filhos, medo ou dependência emocional”, afirmou.

Ela ressaltou ainda que a violência nem sempre começa com agressões físicas. “Muitas vezes é controle, humilhação, constrangimento. Isso mina a autoestima antes da agressão física aparecer”.

Trabalho preventivo inclui palestras e grupos reflexivos para agressores

Além da atuação repressiva, a DEPCAMI tem ampliado ações preventivas no município, com palestras, rodas de conversa e acompanhamento de casos de risco.

Outro destaque é a realização de grupos reflexivos para homens com histórico de violência doméstica, iniciativa implantada no município com apoio do Judiciário. “Esses grupos têm apresentado bons índices de não reincidência”, destacou.

Falta de políticas públicas ainda é desafio regional

A delegada também chamou atenção para a ausência de estruturas essenciais de acolhimento na região.

Segundo ela, a região da AMESC ainda não possui casa de acolhimento para mulheres vítimas de violência, o que dificulta o rompimento definitivo de relações abusivas. “Ainda falta muito em termos de políticas públicas na área de prevenção”, afirmou.

Ela destacou ainda a importância da atuação do Conselho Municipal da Mulher, recentemente estruturado no município, que já iniciou ações de conscientização e mobilização social.

Mobilização social é fundamental para enfrentar a violência

A delegada reforçou que o enfrentamento da violência contra a mulher exige mudança cultural e participação coletiva. “Qualquer mulher merece respeito, sendo conhecida ou não. Quando as pessoas começarem a se posicionar contra atitudes machistas e abusivas, já será um grande passo”.

A entrevista ocorreu poucos dias após a mobilização realizada em Araranguá contra a violência doméstica e ganha ainda mais relevância diante da morte recente registrada no município, caso que segue sob investigação pelas autoridades.