“Meus pais vieram me buscar!”, a emoção de um casal ao buscar os filhos adotivos pela primeira vez na escola
O mês de maio se destaca por ações que visam conscientizar a adoção de crianças e adolescentes. Atualmente no Brasil, tramitam aproximadamente cinco mil processos de adoção, sendo que mais de 300 deles envolvem grupos de irmãos adotados por uma mesma família.
Paulo Daitx e Alan Baltazar estão juntos há 10 anos e casados legalmente há sete anos, e há cinco são pais adotivos de duas crianças. Paulo conta que a vontade de ter uma família sempre foi muito presente na vida do casal. “Sempre fomos muito ligados a nossas famílias, amamos nos reunir com eles. Mas quando voltávamos pra nossa casa, ficava um vazio, faltava algo. Nosso amor já era mais do que o suficiente a nós dois e chegava a hora de pensar em aumentar a família e compartilha-lo”.
Com o passar do tempo, muitas conversas e pesquisas eles chegaram à conclusão de que estavam aptos para a paternidade. “Foram longos meses de conversas e conselhos de como seria o próximo passo para que chegássemos à paternidade. Foi onde encontramos o programa “Histórias de Adoção” no canal GNT que contava histórias de famílias que buscaram a adoção como meio de receber seus filhos. Lembro bem de uma história em que a Juíza Mônica Labuto, do Rio de Janeiro contava suas experiências na busca de famílias para crianças que não estavam no perfil idealizado pela maioria das pessoas que buscam a adoção. E nisso não falo de crianças com limitações física e ou mental, falo de crianças acima de cinco anos e negras, com irmãos que não querem ser separados. Era isso que queríamos para a nossa família, uma história de amor incondicional independente dos desafios que viessem pela frente”, relembra Daitx.
Para que o sonho pudesse ser realizado, o casal buscou a Vara da Infância e Juventude da Comarca de Torres, cidade que residem. Deste primeiro contato até o fim de todos os protocolos para estarem habilitados foram nove meses, e esse foi o tempo da gestação do coração. Segundo Paulo, esse período foi muito importante para abrirem mais possibilidades. “A princípio idealizamos uma criança de até seis anos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Já no fim do processo de habilitação já estávamos disponíveis para adoção de irmãos até 10 anos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro”.
Durante o processo Paulo e Alan descobriram que existem grupos de voluntários que trabalham com a “procura ativa”, que visa encontrar famílias para aquelas crianças fora do perfil mais buscado e para grupos de irmãos. E foi em um desses grupos que encontraram uma voluntária de Brasília, que divulgou uma lista com crianças disponíveis para adoção em vários estados. Na lista tinham várias crianças e no contato para mais informações era o e-mail da juíza do RJ do episódio do programa que eles haviam assistido. “Era quinta-feira, estávamos almoçando, nós olhamos e sabíamos que algo diferente e especial estava acontecendo. Enviamos naquele momento um e-mail para a Dra. Mônica com nossa documentação e interesse. Assim como no episódio que havíamos assistido, a resposta veio no sábado à noite por e-mail, dizendo que na segunda-feira alguém entraria em contato conosco. Foi certamente o domingo mais longo das nossas vidas. E na segunda-feira nosso telefone tocou, era a notícia que tanto esperávamos e para a surpresa inclusive da equipe que nos ligou estávamos dispostos a receber dois meninos negros de 6 e 9 anos. Acreditavam que nosso cadastro estava errado, pois não é comum aceitarem este perfil de crianças”, conta Paulo.
Um novo capítulo se iniciava, foram quase dois meses de longas conversas por telefone. O casal não sabia o nome dos meninos e nem como eles se pareciam. A única imagem que possuíam era de uma foto deles brincando de costas. Mas em certo momento em uma dessas ligações escapou entre a equipe o nome deles, e seus corações se encheram de alegria. “Com quase dois meses falando com a equipe, fomos para o Rio de Janeiro, fazer o primeiro contato. Tudo poderia acontecer, poderíamos não nos adaptarmos, poderia acontecer de as crianças nos negarem, mas Deus preparou para nós um reencontro de almas e vidas. Fomos três vezes ao Rio de Janeiro, no período de agosto a outubro. Na comarca em que os meninos estavam as adoções eram feitas final de outubro e final de abril. Colocamos nas mãos de Deus e que ele fizesse o melhor pra todos nós”, detalha Paulo.
Encontros
As crianças ficavam em uma instituição de acolhimento, e tinham rotinas, como por exemplo irem à escola. E foi na escola que Paulo e Alan escutaram pela primeira vez alguém os chamarem de pai. “No primeiro dia em que acompanhamos os meninos na escola, fizemos uma surpresa ao ir buscá-los. O mais novo ao me ver no portão gritou para a professora: “Professora meus pais vieram me buscar!” Foi a primeira vez que fui chamado de pai, me emociono só de recordar. A cada retorno do Rio os meninos adoeciam, era um sinal de que o vínculo estava estabelecido. Já éramos uma família”.
Em outubro de 2017 ocorreu a audiência, onde foram apresentados laudos da instituição que falavam de amor, união e vínculo familiar. “Enfim pudemos trazer os meninos para Torres, recebemos uma festa surpresa com nossos familiares. Nossa rotina recebeu regras e alterações porque agora tínhamos crianças em casa. A adaptação foi muito tranquila tanto dos meninos quanto a nossa. Tudo era aprendizado para todos. Os meninos conheciam quase nada da vida, poucos alimentos faziam parte da rotina, então tivemos o prazer de apresentar o mundo de possibilidades e principalmente o amor. Aquele amor que tínhamos para partilhar”.
A família está unida há cinco anos, e hoje os meninos tem 12 e 14 anos. O casal conta com a guarda provisória das crianças devido a alguns recursos e burocracias da comarca do Rio de Janeiro. “Durante todo o processo de adoção foram raros os momentos em que percebemos algum preconceito por sermos um casal homoafetivo, mas sim eles aconteceram. Sabemos o quanto a sociedade ainda precisa se abrir para este assunto, mas tivemos tantas pessoas maravilhosas nesse processo que fez tudo valer a pena. Na escola passamos por diversas situações de racismo com alunos e professores, que ainda acontecem, mas de forma mais esporádica”, finaliza Paulo.









