Geral TDAH: dificuldades enfrentadas por adultos diagnosticados tardiamente

TDAH: dificuldades enfrentadas por adultos diagnosticados tardiamente

08/03/2023 - 16h57

Você já deve ter ouvido falar em TDAH. A sigla é a abreviação para Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Segundo o Ministério da Saúde o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, e está relacionado a alterações de início precoce no desenvolvimento, que podem cursar com déficits no funcionamento pessoal, social, acadêmico ou profissional.  De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção – ABDA, o número de casos de TDAH variam entre 5% e 8% a nível mundial.  No Brasil esse número chega a 2 milhões de pessoas.

Sintomas

A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde expõe os sintomas do TDAH em duas partes:

Crianças e adolescentes

Em crianças e adolescentes os sintomas são: agitação, inquietação, movimentação pelo ambiente, mexem mãos e pés, mexem em vários objetos, não conseguem ficar quietas (sentadas numa cadeira, por exemplo), falam muito, têm dificuldade de permanecer atentos em atividades longas, repetitivas ou que não lhes sejam interessantes, são facilmente distraídas por estímulos do ambiente ou se distraem com seus próprios pensamentos. O esquecimento é uma das principais queixas dos pais, pois as crianças “esquecem” o material escolar, os recados, o que estudaram para a prova. A impulsividade é também um sintoma comum e apresenta-se em situações como: não conseguir esperar sua vez, não ler a pergunta até o final e responder, interromper os outros, agir sem pensar. Apresentam com frequência dificuldade em se organizar e planejar o que precisam fazer. Seu desempenho escolar parece inferior ao esperado para a sua capacidade intelectual, embora seja comum que os problemas escolares estejam mais ligados ao comportamento do que ao rendimento. Meninas têm menos sintomas de hiperatividade e impulsividade, mas são igualmente desatentas.

Adultos

Acredita-se que em torno de 60% das crianças e adolescentes com TDAH entrarão na vida adulta com alguns dos sintomas de desatenção e hiperatividade/impulsividade, porém em menor número. Os adultos costumam ter dificuldade em organizar e planejar atividades do dia a dia, principalmente determinar o que é mais importante ou o que fazer primeiro dentre várias coisas que tiver para fazer. Estressam-se muito ao assumir diversos compromissos e não saber por qual começar. Com medo de não conseguir dar conta de tudo acabam deixando trabalhos incompletos ou interrompem o que estão fazendo e começam outra atividade, esquecendo-se de voltar ao que começaram anteriormente. Sentem grande dificuldade para realizar suas tarefas sozinhos e precisam ser lembrados pelos outros, o que pode causar muitos problemas no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos com outras pessoas.

Como é feito o diagnóstico?

Segundo a psicóloga Flávia Roberta,  o diagnóstico para o TDAH é multidisciplinar, assim como o tratamento. Podendo ser realizado por psicólogos, neuropsicólogos, neurologista ou psiquiatra. O diagnóstico é clínico e se baseia na avaliação médica, educacional, e do desenvolvimento, podendo ainda ser realizado alguns testes envolvendo atenção, concentração e memória.

Para firmar o diagnóstico de TDAH, é necessário que os sintomas estejam presentes na vida da pessoa por seis meses ou mais, se manifestem antes dos 12 anos de idade (mesmo para quem teve o diagnóstico tardio, na fase adulta) e interfiram no desempenho da pessoa em pelo menos dois ambientes diferentes, como atividades em casa e na escola.

Sobre os tipos de TDAH a psicóloga explica os três. “O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade tem três tipos de classificação, então ele poderá ser do tipo predominante hiperativo/impulsivo, desatento ou do tipo misto/combinado com os sinais de desatenção e hiperatividade/impulsividade juntos. Esses três tipos podem ter seus sintomas de forma leve, moderada ou grave, interferindo em vários níveis no funcionamento social e profissional”, detalha.

Relatos

Diagnosticada com o transtorno somente aos 29 anos, a assistente administrativa, Scheila Rosa detalha as dificuldades enfrentadas. “Meu diagnóstico foi tardio, e foi através de um psiquiatra especialista em transtornos. Os sintomas eu sempre tive, mas eu pensava ser meu jeito de ser. Sempre fui uma criança hiperativa e desatenta. Tive dificuldade em prestar atenção nas aulas, mas sempre fui muito inteligente. Fui aquela aluna que deixava para fazer os trabalhos ou provas nos minutos finais”, relata.

O repórter cinematográfico Leonardo Crispim, conta as mesmas dificuldades encontradas por Scheila. “No tempo de escola minha mãe vivia sendo chamada porque eu era o desvirtuador da turma. Claro, eu estava prestando atenção na aula, daí caia uma caneta e eu já começava uma conversa paralela, então era sempre eu que começava uma resenha. O TDAH me tirava a atenção e eu começava um outro assunto e atrapalhava aula. Tinha dias que nem caderno levava, mas sempre obtive notas razoáveis”.

Na fase adulta Scheila destaca que essa inquietude a acompanhou. “Após adulta tive problemas em me encontrar, não parava em serviço nenhum. Quando arrumava emprego me empenhava de todas as formas, mas assim que passava alguns dias eu já perdia o interesse sendo demitida ou simplesmente não indo mais. Sempre sofri muito vendo meus antigos colegas em uma faculdade, se formando e eu sem saber ainda o que queria ser. Enquanto eles se formavam eu era apenas mãe aos 25 anos”.

Leonardo comenta que o transtorno não o deixava completar projetos e se culpada por isso. “Quando você descobre o TDAH tardio você percebe o porquê de não ter terminado alguns projetos na sua vida. O transtorno me atrapalhou muito na adolescência e juventude porque eu não dava sequência nas coisas que fazia. No próprio trabalho, eu não ficava muito tempo, era no máximo um ano, um ano e meio, agora depois do tratamento já estou há cinco anos na mesma empresa”, comenta.

Os relacionamentos também são impactados pela falta de capacidade básica de prestar atenção. “O transtorno também dificultou meus relacionamentos, minhas parceiras sempre reclamavam da falta de atenção, ou que eu não prestava atenção no que elas falavam, era sempre a mesma reclamação”, relata Leonardo, que destaca que a hiperatividade no seu caso não está relacionada a somente aspectos físicos. “A hiperatividade não é só não conseguir ficar parado em um lugar, mas também, que é o acontece sempre, é minha cabeça não para de pensar. Por exemplo, eu estou pensando em alguma coisa, posso até estar focado, mas se eu me distraio, eu já vou para outro lado e já penso em outra coisa. Daí tu vai emendando um pensamento no outro, sem concluir nada. E se tu não executas na medida que tu vais pensando, tu vais pulando as coisas, até tu ficar com um turbilhão de coisas na cabeça e nada concreto”.

No dia a dia Scheila conta que encontra problemas em se relacionar. “Tenho dificuldades no dia a dia, possuo baixa tolerância às vezes explodo, preciso me policiar muito. Não sei disfarçar quando algo não me agrada. Tenho o pensamento acelerado e estou sempre conversando na minha cabeça. Procrastino muito, alguns dos sintomas se confunde até com o TEA, não gosto que me toque, acariciei ou cutuque, são poucas pessoas que me sinto à vontade de conversar olhando nos olhos. Certo tipo de roupa (tecido) não consigo usar e falo alto pra caramba e estou sempre interrompendo as pessoas. O tratamento me ajuda muito a ficar mais tranquila e silenciar minha mente”, finaliza.

Tratamento

Segundo Flávia, o tratamento deve ser feito o mais cedo possível. “Quanto antes a pessoa iniciar o tratamento será melhor para a diminuição dos sintomas e para ela conseguir se relacionar da melhor forma no seu cotidiano e com as pessoas ao redor, prevenindo o aparecimento de alguma comorbidade, como transtornos de ansiedade e depressão em sua vida”.

A psicóloga explica que o tratamento visa amenizar os sintomas. “O tratamento consiste em realizar sessões de terapia, e o uso de medicações com o acompanhamento psiquiátrico e ou com o neurologista, para que esses sintomas sejam amenizados e não atrapalhem a vida escolar, profissional e pessoal. A terapia indicada é a cognitivo comportamental, que irá auxiliar a controlar os impulsos do seu comportamento e melhorar sua vida acadêmica, elevando sua motivação e autoestima”, finaliza a psicóloga.