Economia Vai faltar arroz no Brasil? Especialistas divergem sobre necessidade de importar o grão de outros países e zerar a TEC

Vai faltar arroz no Brasil? Especialistas divergem sobre necessidade de importar o grão de outros países e zerar a TEC

22/05/2024 - 07h27

Em meio a uma acalorada discussão sobre o abastecimento de arroz no Brasil, especialistas do setor agrícola afirmam que a produção nacional é suficiente para atender à demanda interna, apesar das recentes medidas do Governo Federal de zerar a Tarifa Externa Comum (TEC) para importação de arroz de fora do Mercosul até o final de 2024.

Produção Nacional e Estoques

De acordo com Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, a safra de arroz do Rio Grande do Sul, maior produtor do grão no Brasil, foi estimada em 7,15 milhões de toneladas, um volume apenas 1,24% menor do que o da safra anterior. Quando combinada com a produção de outros estados, a produção nacional totaliza entre 10 e 10,2 milhões de toneladas, o que é suficiente para abastecer o mercado interno, que consome entre 10,2 e 10,4 milhões de toneladas anualmente.

No entanto, os estoques de arroz estão em um nível considerado apertado. Segundo o analista Evandro Oliveira, da Safras & Mercado, os estoques iniciais em março foram de aproximadamente 500 mil toneladas, um dos níveis mais baixos em quase duas décadas. Essa situação pressiona a oferta e justifica um aumento nas importações, estimadas entre 1,7 e 1,9 milhões de toneladas para este ano.

Medida Contestada

A decisão do governo de zerar a TEC foi fortemente criticada por representantes do setor produtivo. Carlos Cogo classifica a medida como “equivocada, inoportuna e desastrosa no longo prazo”. Ele argumenta que, ao permitir a importação sem tarifas, o governo desestimula a produção nacional e afeta a rentabilidade dos produtores, muitos dos quais são pequenos e médios agricultores.

Por outro lado, Andressa Silva, diretora executiva da Abiarroz (Associação Brasileira da Indústria do Arroz), defende a retirada da TEC. Segundo ela, essa medida permite que o setor privado importe arroz de terceiros mercados, aumentando a oferta interna e ajudando a controlar os preços. Silva destaca que a importação pelo governo seria onerosa e poderia desregular a comercialização do produto, aquecendo os preços internacionais.

Impactos no Setor Produtivo

O impacto das medidas governamentais no ânimo dos produtores é significativo. “O zeramento da TEC sem cotas e a manutenção da intenção de compra de arroz importado pela Conab é um tiro duplo no ânimo dos produtores. O governo impôs uma grande derrota ao setor produtivo”, afirma Cogo.

Perspectivas Futuras

O cenário para a próxima temporada é de expectativas mistas. Se a produção de arroz no Brasil continuar ajustada ao consumo e houver um aumento na área plantada, a previsão é de uma temporada mais equilibrada em 2025. “Com uma nova temporada de La Niña, há grandes chances de uma produção mais favorável”, explica Oliveira. Ele projeta que, com uma oferta total de 12,45 milhões de toneladas e uma demanda de 11,4 milhões de toneladas, os estoques finais em fevereiro de 2025 devem alcançar cerca de um milhão de toneladas, melhorando a relação estoque-consumo.

Conclusão

Enquanto o governo defende suas medidas para evitar desabastecimento e controlar preços, o setor produtivo expressa preocupação com os efeitos a longo prazo dessas políticas. A situação atual requer um equilíbrio delicado entre manter a produção interna viável e garantir que a oferta de arroz atenda à demanda nacional sem causar grandes impactos no mercado.