Crimes digitais crescem e exigem atenção redobrada da população, alerta especialista
Especialista em cibersegurança, Robson Silva destaca os golpes mais comuns, explica como os criminosos agem e orienta sobre as primeiras medidas em caso de fraude
Com o uso cada vez mais frequente de celulares, aplicativos bancários, redes sociais e compras online, os crimes digitais também se tornaram uma preocupação crescente. Em entrevista à Rádio Araranguá, o policial civil especializado em cibersegurança Robson Silva falou sobre os principais golpes aplicados atualmente, os cuidados necessários para evitar prejuízos e as providências que devem ser tomadas quando uma pessoa percebe que foi vítima de fraude.
Segundo o especialista, os crimes virtuais vão muito além da invasão de computadores e envolvem diversas situações do cotidiano digital. “Quando a gente fala de crime digital, hoje na internet a gente está falando de uma gama impressionante de coisas que podem acontecer. Uma transferência PIX, uma invasão de dispositivo, uma perda de conta de rede social, uma série de situações. O crime na internet é aquela infração penal que acontece no ambiente virtual”, explicou.
Engenharia social é a principal arma dos criminosos
De acordo com Robson, a maioria dos golpes não depende de conhecimentos avançados de informática, mas sim da capacidade dos criminosos de manipular emocionalmente as vítimas.
“Pouquíssimos crimes hoje na internet acontecem porque o cara tem um conhecimento muito profundo em tecnologia. A maioria dos crimes acontece porque a vítima acaba, de certa forma, colaborando”, afirmou.
Ele destaca que os golpistas utilizam uma técnica conhecida como engenharia social. “É quando o criminoso consegue convencer a vítima contando uma história qualquer e faz com que ela realize aquilo que ele precisa, seja uma transferência de dinheiro, passar uma senha ou fornecer um dado sigiloso”, explicou.
Segundo o policial, muitas vezes os criminosos utilizam informações básicas obtidas em vazamentos de dados para dar credibilidade à fraude. “Ele consegue um telefone, um nome, um CPF e cria uma história. Pode se passar por um familiar, um advogado, um atendente de banco ou alguém de uma empresa. A partir da fragilidade e da inexperiência da vítima, ele vai conduzindo a situação”.
Golpe do falso advogado liderou registros
Entre os golpes mais frequentes registrados nos últimos meses em Santa Catarina, Robson destacou o chamado “golpe do falso advogado”. “Do meio de 2025 até janeiro de 2026, o golpe que mais tivemos disparado foi o do falso advogado”, revelou.
O esquema consiste em utilizar informações públicas disponíveis nos processos judiciais para convencer a vítima de que ela tem valores a receber. “O criminoso consegue acessar dados básicos do processo, descobre quem é o advogado e entra em contato dizendo que saiu uma decisão favorável. Depois afirma que é necessário pagar taxas ou honorários para liberar o valor”.
Segundo ele, os criminosos chegam a promover falsas videoconferências com supostos servidores de tribunais para aumentar a credibilidade da fraude.
Além das transferências via PIX, muitas vítimas acabam permitindo acesso remoto aos seus dispositivos. “Eles convencem a pessoa a instalar programas legítimos de acesso remoto e, quando a vítima percebe, o criminoso já está mexendo no telefone ou computador dela”.
Falsos atendentes de banco continuam fazendo vítimas
Outro golpe recorrente é o do falso atendente bancário. Nesse caso, a vítima recebe uma ligação informando sobre uma compra supostamente realizada em seu cartão de crédito.
“A gravação diz que existe uma compra aprovada e pergunta se você reconhece aquela transação. Quando a pessoa responde que não, acaba sendo transferida para o criminoso, que começa a convencê-la a realizar procedimentos que resultam no golpe.”
Segundo Robson, o objetivo normalmente é fazer com que a vítima transfira dinheiro para uma conta controlada pelos criminosos.
Vazamentos de dados alimentam fraudes
Questionado sobre como os golpistas conseguem tantas informações pessoais, o policial explicou que grande parte delas vem de vazamentos de dados. “Todos nós temos dados vazados na internet. Muitas vezes a empresa anuncia um vazamento, mas nem sempre sabemos exatamente quais informações foram expostas”.
Ele também alertou para a atuação de pessoas que trabalham dentro de instituições e repassam dados a criminosos. “Existem situações em que funcionários de bancos, operadoras ou órgãos públicos acabam sendo aliciados para fornecer informações privilegiadas”.
Redes sociais fornecem informações valiosas aos criminosos
Robson também chamou a atenção para o excesso de exposição nas redes sociais. Segundo ele, muitas pessoas divulgam detalhes da rotina sem perceber os riscos envolvidos. “O criminoso sabe se eu estou viajando, se estou em casa, onde trabalho, se tenho filhos, qual é meu cachorro, qual é meu gato. Todas as informações estão lá”.
Para o especialista, essas informações ajudam os golpistas a construir histórias cada vez mais convincentes. “Se eu quero direcionar alguma coisa para alguém, a internet me entrega tudo isso e eu consigo criar a história que eu quiser”.
O que fazer ao cair em um golpe?
Ao falar sobre as medidas que devem ser tomadas após uma fraude, Robson fez um alerta importante: a prioridade deve ser tentar recuperar o dinheiro antes mesmo de procurar a polícia. “Se o crime é financeiro, esquece delegacia naquele primeiro momento. O primeiro passo é entrar em contato com o banco e tentar recuperar o dinheiro”.
Ele orienta que vítimas de golpes via PIX utilizem imediatamente o Mecanismo Especial de Devolução (MED), ferramenta criada pelo Banco Central para contestar transferências fraudulentas.
“Hoje todos os bancos possuem essa opção dentro do próprio aplicativo. É preciso agir o mais rápido possível porque o criminoso transfere o dinheiro para outras contas em questão de minutos”.
Segundo ele, quanto mais rápida for a contestação, maiores são as chances de recuperar os valores. “Minha preocupação tem que ser imediata com o dinheiro. Depois eu vou pensar no boletim de ocorrência e nas demais providências”.
Informação é a principal defesa
Ao encerrar a entrevista, Robson Silva reforçou que a prevenção continua sendo a melhor estratégia contra os crimes digitais. “A simplicidade dos golpes é muito grande, mas a simplicidade da prevenção também. Por isso a necessidade de informar as pessoas e deixá-las cientes dos cuidados que precisam ter”.
Ele recomendou que a população desconfie de contatos inesperados, evite compartilhar senhas e códigos de confirmação e redobre a atenção diante de qualquer solicitação financeira recebida por telefone, mensagem ou redes sociais. “Estamos sempre à disposição para alertar e tentar ajudar a população”, concluiu.









