Segurança Crimes digitais: policial civil alerta para golpes e orienta população sobre como evitar prejuízos

Crimes digitais: policial civil alerta para golpes e orienta população sobre como evitar prejuízos

14/09/2026 - 09h57

Robson Silva, policial civil especializado em cibersegurança, revelou que mais de 2 mil registros relacionados a crimes digitais já chegaram ao setor especializado da Polícia Civil de Araranguá desde fevereiro de 2025

Os crimes digitais fazem cada vez mais parte da rotina da população e os criminosos utilizam estratégias cada vez mais sofisticadas para enganar as vítimas. Golpes envolvendo falsas centrais bancárias, falsos advogados, clonagem de contas, roubo de dados e transferências via Pix estão entre as ocorrências que chegam às delegacias.

Em entrevista à Rádio Araranguá, o policial civil especializado em cibersegurança Robson Silva falou sobre o crescimento desse tipo de crime, explicou como os criminosos conseguem obter informações das vítimas e apresentou orientações para reduzir os riscos de cair em golpes.

Mais de 2 mil registros em Araranguá

Segundo Robson, a realidade de Araranguá não é diferente da observada em outras cidades e regiões do Estado e do país. O volume de ocorrências, inclusive, representa um grande desafio para a investigação policial.

O policial explicou que chegou à Primeira Delegacia de Polícia de Araranguá em fevereiro de 2025. Desde então, os números chamam a atenção. “No ano passado, de fevereiro até o final de 2025, eu recebi 1.093 registros policiais para investigar e esse ano de janeiro até sexta-feira, 11 de setembro, eu já estou com 1.074 boletins de ocorrência para investigar.”

Com isso, o setor já ultrapassou a marca de 2 mil registros policiais. “Então já passou dos 2.000 registros policiais que chegaram para o meu setor, então o meu setor hoje é exclusivamente para investigar os crimes de internet, tem alguns estelionatos pontuais que são presenciais que também acabam vindo para mim e alguns casos de extorsão relacionados ou não com o crime digital, mas basicamente a maioria dos casos que tem hoje são crimes digitais.”

Robson afirma que atualmente recebe, em média, 40 boletins de ocorrência por semana. “Então assim, não é muito diferente de Criciúma, que é até uma cidade obviamente maior que a nossa, mas o número é bem aproximado, então assim, fica inviável, infelizmente, da gente conseguir investigar tudo, analisar tudo.”

O policial destaca que a equipe busca tomar conhecimento de todos os casos, mas reconhece a dificuldade diante do volume de ocorrências. “A gente tenta ao máximo poder tomar ciência e investigar todos os casos, mas é humanamente impossível se fazer isso.”

Além da investigação, Robson aponta a orientação da população como uma das principais ferramentas para combater esse tipo de crime. “A gente vai tentando orientar as pessoas para evitar cair nos golpes, mas o que a gente tem hoje é, sem dúvida nenhuma, um número absurdo de crimes acontecendo todo dia e o criminoso vai se reinventando.”

Falso atendente de banco é um dos principais golpes

De acordo com o policial, os golpes mais comuns mudaram ao longo do tempo. No segundo semestre de 2025, o chamado golpe do falso advogado estava entre os mais frequentes.

Já no primeiro semestre de 2026, os falsos atendentes bancários passaram a liderar as ocorrências. “No primeiro semestre, as ocorrências mais comuns são as dos falsos atendentes de banco, seja um falso gerente, um falso funcionário e aí o golpe do falso advogado foi deslocado para segundo lugar, ainda acontece com bastante frequência, mas ele foi deslocado para segundo lugar.”

Robson explica que uma das diferenças está nos valores envolvidos.

Nos golpes de falsos gerentes ou atendentes, segundo ele, os prejuízos normalmente ficam na faixa de mil a dois mil reais, podendo chegar a aproximadamente cinco mil reais ou até ultrapassar esse valor em alguns casos.

Já o falso advogado pode provocar prejuízos muito maiores. “O golpe do falso advogado é um pouco mais cruel, porque muitas vezes as pessoas têm ações judiciais em valores mais altos.”

Os criminosos utilizam informações públicas de processos judiciais combinadas com dados obtidos de outras fontes para construir uma abordagem convincente. “O criminoso acessa o site do Tribunal de Justiça, consegue as informações básicas, nome do autor, do advogado, nome da vítima e o advogado, valor da ação e a data mais ou menos em que aquela ação teve início.”

A partir dessas informações, o criminoso entra em contato com a vítima e afirma que houve uma decisão favorável no processo, mas que seria necessário realizar algum pagamento para liberar o dinheiro.

“E aí com esses dados básicos, ele pega dado vazado na internet, identifica o número da pessoa e liga e diz, olha, aquela tua ação lá de duzentos mil, saiu o resultado, mas você tem que pagar o imposto de renda, tem que pagar os honorários e aí o golpe vai no percentual daquele valor da ação.”

Criminosos podem até falsificar o número de telefone

Uma das estratégias utilizadas pelos golpistas é o spoofing, técnica que pode fazer com que uma chamada apareça para a vítima como se tivesse vindo de um número conhecido.

Robson alerta que, por isso, não basta confiar apenas no número que aparece na tela do celular. “Então numa rede social eu não consigo ter certeza de quem que está do outro lado, numa ligação telefônica eu não consigo saber se de fato é o atendente do banco, é o meu filho, é a minha mãe, é o meu pai que está lá dizendo que precisa fazer o pagamento de um boleto, eu não consigo saber se de fato é o meu advogado.”

Segundo ele, os criminosos pesquisam informações sobre a vítima para tornar a abordagem mais convincente. “Eu tenho que desconfiar, porque eu vou receber a ligação do falso gerente dizendo, olha, tem uma compra aqui que foi feita uma tentativa de compra no teu cartão ou na tua conta, tentaram mexer, pega esse dinheiro que tem todo na conta e transfere para a conta de um terceiro.”

Para Robson, uma das principais formas de prevenção é justamente desconfiar. “Essa necessidade de eu desconfiar de todo mundo é o que vai acabar me livrando de um golpe, eu não tenho nenhuma dúvida disso.”

O que fazer depois de cair em um golpe?

Quando o prejuízo já aconteceu, a rapidez na tomada de providências pode ser fundamental. No caso de transferências via Pix, Robson orienta que a vítima procure imediatamente o próprio aplicativo bancário.

Ele explica que existe o Mecanismo Especial de Devolução (MED), utilizado para contestação de transações Pix em situações de fraude ou golpe. “Então eu tenho uma conta da Caixa Econômica ou do Nubank, enfim, fiz uma transação por Pix e aquela transação depois que eu fiz é que eu me dei conta, putz, aquilo foi um golpe fraudulento, eu já vou de imediato acessar o meu aplicativo, acessar aquela minha transação lá dentro do extrato.”

A orientação é realizar a contestação dentro do próprio aplicativo do banco, acessando a transação. “Cada banco tem a sua nomenclatura, mas eu vou fazer a contestação por ali, obrigatoriamente.”

Robson também faz um alerta para que a vítima não continue conversando com o criminoso depois de perceber o golpe. “Tem gente que ainda cai no golpe, faz o pagamento do Pix e aí continua fazendo contato com aquela pessoa que já tomou dinheiro dela, a pessoa manda um outro link, um outro aplicativo, ela vai contestar e perde mais dinheiro.”

E quando o pagamento foi feito por boleto?

Os boletos também são utilizados pelos criminosos, inclusive em golpes em que o fraudador se passa por um familiar.

Robson explica que, nesse caso, a vítima deve procurar o banco imediatamente ao perceber que foi enganada. “Sempre que a pessoa se deu conta, no mesmo dia que ela fez o pagamento do boleto de que aquilo era um golpe, ela tem que entrar em contato com o banco dela de forma imediata e solicitar o cancelamento da compensação daquele boleto.”

Caso o pagamento já tenha sido compensado, a recuperação dos valores pode se tornar mais complexa. “Aí já compensou, a gente vai ter que ir atrás de quem recebeu e aí é um processo um pouco mais longo.”

Polícia investiga criminosos, mas recuperação do dinheiro passa pelos bancos

Robson também esclareceu uma diferença importante entre a atuação policial e os procedimentos necessários para tentar recuperar valores perdidos. “Porque a polícia não consegue reaver o dinheiro, a gente não consegue entrar no sistema financeiro.”

Segundo ele, o trabalho da Polícia Civil é identificar os autores dos crimes e encaminhar os procedimentos para a Justiça. “O que a gente vai fazer é investigar o criminoso ou os criminosos, tentar encaminhar o nome depois para o Judiciário, para o meio de indiciamento e o Judiciário condenar.”

Por isso, a vítima deve agir rapidamente junto à instituição financeira. “Questão de recuperação de valores é com os bancos. A polícia vai tentar identificar os autores do crime e uma punição penal com relação a essas pessoas.”

Principal orientação: desconfie

Ao resumir as principais recomendações para a população, Robson reforçou que a cautela deve estar presente em qualquer contato digital ou telefônico. “O que eu costumo dizer muito é, desconfia sempre de tudo e de todos na internet.”

A recomendação vale mesmo quando a ligação parece vir de alguém conhecido, como um gerente de banco, advogado ou familiar.

Robson lembra ainda que códigos recebidos por SMS ou WhatsApp não devem ser repassados a terceiros sem que a pessoa tenha certeza da identidade de quem está solicitando a informação.

A lógica, segundo o policial, é simples: “Diante de uma situação inesperada envolvendo dinheiro, senhas, códigos ou transferências, é preciso interromper o contato e buscar uma forma independente de confirmar a informação”.

Polícia Civil está à disposição para orientar

Robson reforçou que a população pode procurar a Polícia Civil quando for vítima de um crime e precisar de orientação. “Sempre que precisar, estamos à disposição na delegacia e a gente tenta orientar as pessoas lá também.”

Ele, porém, reforçou que, em casos envolvendo transferência de dinheiro, a prioridade deve ser tentar bloquear ou contestar a operação junto ao banco. “Te preocupa primeiro em recuperar o teu dinheiro e depois te preocupar em fazer um boletim de ocorrência, procurar a polícia para tentar.”

A orientação, portanto, é agir rapidamente: “Primeiro buscar o banco e os mecanismos disponíveis para tentar bloquear ou recuperar o dinheiro e, na sequência, registrar a ocorrência e procurar a Polícia Civil para auxiliar na investigação do crime”, concluiu.