Geral Frio expõe drama das ruas: CREAS intensifica abordagens, mas enfrenta resistência de quem mais precisa de ajuda

Frio expõe drama das ruas: CREAS intensifica abordagens, mas enfrenta resistência de quem mais precisa de ajuda

26/06/2026 - 18h05

Mesmo com vagas disponíveis em abrigos, alimentação, atendimento psicológico e oportunidades de reinserção social, grande parte das pessoas em situação de rua de Araranguá recusa acolhimento. Município reforça ações diante da onda de frio intenso que atinge a região.

As baixas temperaturas registradas nos últimos dias em Araranguá acenderam um alerta para uma realidade que desafia diariamente os serviços de assistência social: a situação das pessoas que vivem nas ruas. Enquanto o frio intenso aumenta os riscos à saúde e à vida dessa população, equipes do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) intensificam as abordagens em busca de convencer homens e mulheres a aceitarem acolhimento e atendimento especializado.

O problema, no entanto, vai além da falta de estrutura. Em entrevista à Rádio Araranguá a coordenadora do CREAS de Araranguá, Michele Vitor, destacou que o maior desafio está justamente na baixa adesão das pessoas em situação de rua aos serviços oferecidos pelo município.

“Nosso trabalho é árduo, é contínuo, não é só em dias de frio. Todos os dias a gente tem esse movimento. Lógico que em períodos de massa polar e frente fria nós intensificamos as ações, inclusive realizando abordagens também durante a noite para tentar encaminhá-los para a Casa de Passagem ou para o Albergue”, explicou.

Trabalho começa nas ruas e busca reconstruir vidas

A rotina das equipes inicia logo cedo. Todos os dias, profissionais percorrem os pontos da cidade onde pessoas em situação de vulnerabilidade costumam permanecer.

“A abordagem social trabalha de segunda a sexta-feira. O trabalho inicial é a busca ativa dessa população que fica nas ruas. Nós acordamos essas pessoas, oferecemos nosso serviço, explicamos que temos café da manhã, alimentação, encaminhamento para a Casa de Passagem e todo o suporte disponível no CREAS”, relatou Michele.

Após o primeiro contato, aqueles que aceitam o atendimento são encaminhados para o centro de referência, onde recebem alimentação, banho, roupas e acompanhamento multiprofissional.

“A gente tenta fazer uma acolhida, ouvir aquela pessoa, entender por que ela está na rua e o que podemos fazer para auxiliar na sua resocialização. Temos psicólogo, assistente social e uma rede de serviços para ajudá-la a reconstruir seu projeto de vida”, afirmou.

Além do acolhimento imediato, o trabalho inclui regularização de documentos, inclusão em programas sociais, elaboração de currículos, encaminhamento ao mercado de trabalho e acesso aos serviços de saúde.

Estrutura existe, mas falta adesão

Apesar da estrutura disponível, a procura pelos serviços de acolhimento é pequena. Atualmente, Araranguá conta com uma Casa de Passagem que pode receber até 20 pessoas, além do Albergue Municipal, que possui capacidade semelhante. “Lugares para eles ficarem nesse período a gente tem. Só basta eles quererem sair das ruas”, destacou Michele.

Questionada sobre a possibilidade de falta de vagas, a coordenadora foi enfática. “Nunca chegou ao limite. Nunca. A Casa de Passagem sempre consegue acolher mais alguém quando necessário”, afirmou.

Segundo ela, a recusa está diretamente relacionada ao perfil da maioria das pessoas atendidas. “Infelizmente, não tem adesão dessa população para a Casa de Passagem. Na grande maioria eles não querem ir porque lá não podem fazer uso de álcool ou outras drogas. Existem regras, horários e uma rotina que precisa ser seguida”, explicou.

A coordenadora ressaltou que nem mesmo a presença de animais de estimação é impedimento para o acolhimento. “A Casa de Passagem tem um pátio grande e aceita animais. Então isso também não é desculpa. Mas, mesmo assim, eles não querem”, lamentou.

Dependência química está presente na maioria dos casos

De acordo com Michele, a dependência química é uma das principais causas associadas à permanência nas ruas. “Na grande maioria eles têm algum envolvimento com o uso de drogas. Por isso fazemos encaminhamentos para a Secretaria de Saúde, CAPS, ambulatório especializado e, quando necessário, para internações”, explicou.

O CREAS atua no encaminhamento desses casos, enquanto o tratamento é realizado pela rede municipal de saúde. “Nós fazemos o encaminhamento. O tratamento da dependência química é realizado pela Secretaria de Saúde, através do Ambulatório de Álcool e Outras Drogas. É uma grande parceria que temos para tentar ajudar essas pessoas”, disse.

Mesmo após uma internação, o acompanhamento continua. “Se elas aceitarem o tratamento, podem continuar sendo acompanhadas com psiquiatra, grupos terapêuticos e atividades de apoio. Além disso, podem permanecer na Casa de Passagem até conseguirem trabalho e independência financeira”, acrescentou.

Poucos conseguem sair definitivamente das ruas

Apesar do esforço diário das equipes, os resultados aparecem lentamente. Nos últimos quatro anos, apenas quatro pessoas conseguiram deixar definitivamente a situação de rua e retomar uma vida estável.

“Não é um número expressivo. Foram três ou quatro pessoas, no máximo. Mas toda vida é importante. Se conseguimos ajudar quatro pessoas a reconstruírem suas vidas, já é algo muito significativo”, destacou.

Uma dessas histórias marcou a equipe do CREAS. “Um rapaz do Rio Grande do Sul retornou depois de meses para agradecer. Ele passou por internação, voltou para o convívio familiar e foi até o CREAS dizer que estava bem. Isso mostra que o trabalho vale a pena”, contou Michele.

Maioria vem do Rio Grande do Sul

Outro dado revelado pela coordenadora é que a maior parte da população em situação de rua atendida em Araranguá não é natural do município. “Hoje cerca de 70% são oriundos do Rio Grande do Sul. Depois vêm pessoas da nossa própria região. Não são apenas moradores de Araranguá”, explicou.

Para essas pessoas, o município também oferece auxílio para retorno à cidade de origem quando existe interesse e possibilidade de reintegração familiar.

Assistência social não pode obrigar ninguém a sair das ruas

Um dos pontos enfatizados pela coordenadora foi a limitação legal da atuação da assistência social. Segundo Michele, muitas pessoas cobram ações mais rígidas do poder público, mas a legislação brasileira garante direitos individuais que precisam ser respeitados.

“Eu não posso obrigar ninguém a sair da rua. Posso oferecer o serviço, orientar e sensibilizar. Mas ele é um cidadão que tem direito de escolha, direito de ir e vir. Nós não podemos retirar esse direito dele”, afirmou.

A exceção ocorre apenas em situações específicas, quando existe risco comprovado para a própria pessoa ou para terceiros. “Quando alguém coloca a si mesmo ou outras pessoas em risco, mediante avaliação médica e psiquiátrica, pode ocorrer a internação involuntária. Mas mesmo nesses casos a internação é temporária e, muitas vezes, depois a pessoa retorna para as ruas”, explicou.

Orientação à população: ajudar nem sempre significa dar dinheiro

Ao encerrar a entrevista, Michele fez um apelo à comunidade para que a solidariedade seja acompanhada de responsabilidade. “O povo de Araranguá é muito acolhedor. Principalmente nessa época de frio, as pessoas querem ajudar e isso é bonito. Mas é importante conhecer a situação daquela pessoa antes de dar dinheiro”, alertou.

Segundo ela, a esmola pode acabar alimentando o ciclo da dependência química. “De repente, aquele dinheiro que você oferece será usado para comprar drogas. E quando isso acontece, sem perceber, você acaba fortalecendo o tráfico e a violência. Então encaminhe essa pessoa para o CREAS. Leve ela até nós. Vamos conversar e ver o que pode ser feito”, pediu.

Ações serão intensificadas durante a onda de frio

Com a previsão de temperaturas ainda mais baixas nos próximos dias, o município continuará reforçando as abordagens e os trabalhos de sensibilização.

O objetivo é evitar que pessoas permaneçam expostas ao frio extremo, reduzindo riscos de hipotermia e outras complicações de saúde. “Continuamos na luta para tentar tirar todo mundo das ruas. É um trabalho de formiguinha, de construção diária, mas seguimos acreditando que cada vida recuperada vale todo o esforço”, concluiu Michele.

Serviço

O CREAS de Araranguá está localizado na Avenida Coronel João Fernandes, nº 649, bairro Urussanguinha, ao lado do SAMAE.

Atendimento: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30min às 17h30min.

Telefones: (48) 3521-3535 e (48) 99657-8194.