MPSC e ACAERT promovem debate sobre cobertura jornalística responsável de casos de feminicídio
Representantes do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão (ACAERT), jornalistas e profissionais da comunicação participaram, nesta segunda-feira (17), de um encontro para discutir a cobertura jornalística de casos de violência contra as mulheres, evento, que marcou o lançamento do Guia de Boas Práticas para a Cobertura Jornalística de Casos de Violência contra Mulheres, de autoria da professora, doutora e pesquisadora, Melissa Amaral e destacou a importância do papel da imprensa na construção de uma informação responsável, que contribua para o enfrentamento da violência de gênero sem reproduzir estereótipos ou revitimização.

Na abertura, a Procuradora-Geral de Justiça, Vanessa Wendhausen Cavallazzi, destacou a necessidade de refletir sobre a forma como esses casos são apresentados à sociedade. Ela citou exemplos de coberturas em que o foco recaiu sobre supostas justificativas para o crime, em vez da violência praticada contra mulheres e suas famílias. “A forma como informamos importa. Precisamos evitar narrativas que reforcem estereótipos, naturalizem a violência ou busquem justificativas para crimes. O desafio é comunicar com responsabilidade, preservando as vítimas e contribuindo para uma compreensão adequada desses casos pela sociedade”, afirmou.
Baixe o Guia de Melissa Amaral
O presidente da ACAERT, Mário Neves, ressaltou a relevância da parceria entre a entidade e o Ministério Público e a importância de oferecer aos profissionais da comunicação ferramentas que auxiliem na cobertura desses temas. “Estamos tratando de um assunto difícil e doloroso, mas é justamente por isso que precisamos de sensibilidade e responsabilidade na forma de comunicar. Esse trabalho conjunto oferece aos jornalistas um importante instrumento para qualificar a informação e prestar um serviço cada vez melhor à sociedade”, destacou.
A autora do livro, Melissa Amaral, destacou o impacto que a informação tem no debate e na solução do problema. “As empresas de comunicação e os jornalistas têm o dever de informar, mas também a responsabilidade de promover consciência e transformação social. A maneira como contamos a notícia é determinante para o enfrentamento da violência contra as mulheres”, reforçou.
Durante o painel, a Coordenadora do Núcleo de Atendimento à Globo em Santa Catarina Elaine Simiano chamou a atenção para a necessidade de contextualizar os casos de feminicídio, sem concentrar a cobertura em detalhes do crime. “Nosso papel não é explorar como foi o crime, mas informar e contextualizar. O feminicídio é uma tragédia social e precisamos mostrar às mulheres que elas não estão sozinhas, reforçando também os caminhos disponíveis para a busca de ajuda”, afirmou.
A jornalista da NDTV Juliana Rabelo destacou que as decisões editoriais sobre a cobertura desses casos precisam ser resultado de reflexão e debate, e não apenas de reações imediatas ao factual. “Não pode ser algo instintivo. Hoje buscamos discutir previamente essas situações, ouvir especialistas e aprofundar as informações. O Ministério Público tem sido uma fonte importante para trazer contexto e qualificar o debate”, observou.
Já a jornalista do SCC Schaina Marcon compartilhou os desafios enfrentados por profissionais que atuam na cobertura de ocorrências policiais, muitas vezes chegando ao local dos fatos antes mesmo das autoridades. “Há 20 anos não existiam muitas dessas orientações. Aprendemos ao longo da trajetória profissional. Hoje enfrentamos novos desafios, como a circulação de vídeos e imagens dos crimes, e precisamos refletir constantemente sobre o que deve ou não ser divulgado”, relatou.
O evento reuniu jornalistas de veículos de comunicação, membros, servidores, além de representantes do Tribunal de Justiça de SC, OAB/SC e Defensoria Pública de SC.
Mapa do Feminicídio
Durante o evento, também foi destacado o Mapa do Feminicídio de Santa Catarina, ferramenta lançada pelo Ministério Público de Santa Catarina para identificar padrões da violência letal contra mulheres e subsidiar ações de prevenção e enfrentamento. O estudo reúne dados de feminicídios ocorridos entre 2020 e 2024 e revela que, no período analisado, 335 mulheres foram assassinadas em razão da violência de gênero, o que representa cerca de dois terços das mortes violentas de mulheres registradas no estado. O levantamento mostra ainda que a maioria dos crimes ocorre em contextos de relações íntimas e familiares e evidencia a interiorização da violência, com municípios de menor porte apresentando, em alguns casos, taxas proporcionais elevadas. A iniciativa transforma dados em informação qualificada para apoiar políticas públicas e fortalecer a proteção das mulheres.
Fonte: MPSC













