Segurança Delegado e vereador Jorge Giraldi defende reforço no efetivo policial e apresenta proposta para combater abandono de animais em Araranguá

Delegado e vereador Jorge Giraldi defende reforço no efetivo policial e apresenta proposta para combater abandono de animais em Araranguá

12/08/2026 - 09h47

A sobrecarga dos policiais, a redução do efetivo, os cuidados necessários em prisões e reconhecimentos de suspeitos e uma proposta voltada à causa animal estiveram entre os assuntos abordados pelo delegado de polícia e vereador de Araranguá, Jorge Giraldi, em entrevista ao apresentador Saulo Machado, da Rádio Araranguá.

Durante a conversa, Giraldi também chamou a atenção para o papel da sociedade na prevenção de problemas relacionados à segurança pública e explicou o anteprojeto apresentado na Câmara de Vereadores para tentar reduzir casos de abandono de cães e gatos em imóveis alugados.

Delegado relata dificuldades enfrentadas pelos policiais

A entrevista começou com a apresentação de um vídeo que mostrava um homem preso dentro da Central de Polícia de Araranguá, provocando barulho e danificando uma viatura.

Segundo Giraldi, o caso demonstra algumas das situações enfrentadas pelos policiais durante os plantões. “Eu fiz questão de trazer esse áudio, um vídeo, para mostrar o que os nossos policiais às vezes têm que enfrentar durante a madrugada na central de polícia, a única delegacia aberta no Vale do Araranguá, 24 horas por dia”.

O delegado relatou que o homem havia sido preso após uma ocorrência em Meleiro e, segundo as informações apresentadas na entrevista, apresentava comportamento extremamente alterado.

“Ele teria praticado um estupro na cidade de Meleiro, foi trazido a destruir uma caixa de uma viatura da Polícia Militar e passou a noite gritando, está lá nu, ninguém consegue entrar na cela para tirá-lo”.

Giraldi explicou que, diante de situações desse tipo, existe a possibilidade de avaliação relacionada à saúde mental do preso. “Eu acredito que o delegado de Meleiro nessa situação vai pedir um exame de insanidade mental como eu faço às vezes quando a gente percebe que o indivíduo está totalmente desequilibrado”.

Ele também fez uma ressalva sobre a relação entre problemas mentais e prisão. “Eu quero deixar aqui esclarecido à população que não é porque o cara tem problemas mentais que ele não pode ser preso. O problema vai ser na fase judicial”.

Segundo o delegado, caso seja constatada a inimputabilidade, a situação passa a ser tratada de outra maneira no âmbito judicial. “A pessoa que é considerada incapaz das suas faculdades mentais, ele não pode ser condenado, ele vai para um tratamento no hospital de custódia, tratamento psiquiátrico”.

Efetivo reduzido aumenta a pressão sobre os policiais

Jorge Giraldi comparou a estrutura atual da Central de Polícia com a existente décadas atrás. Segundo ele, no passado havia uma equipe maior atuando durante a noite.

“Quando foi criada a Central de Polícia de Araranguá, mais de 20 anos atrás, a Central de Polícia de Araranguá era um patrulhamento ostensivo a noite toda, havia uma equipe de 7, 8 policiais”.

Na avaliação do delegado, a realidade atual é de um efetivo muito menor. “Hoje a gente não consegue fazer mais isso, com várias exceções a gente faz, porque há um contingente reduzidíssimo, não é nem reduzido, é reduzidíssimo”.

Giraldi afirmou que, em determinadas situações, a estrutura pode contar com um escrivão e dois agentes, enquanto o delegado pode estar atendendo à distância. “A gente conta com um escrivão e dois agentes por dia, às vezes o delegado está ali, mas às vezes o delegado também não está”.

Além do atendimento das ocorrências, os policiais precisam cumprir uma série de procedimentos burocráticos e operacionais. “O policial, além de fazer toda aquela parte legal, a parte burocrática de encaminhamento, de exame de corpo de delito, se o cara está machucado tem que ser levado ao IML, o que o presídio não recebe, então nós temos um fardo muito grande”.

O delegado também destacou que o transporte de presos exige mais de um policial. “Em hipótese alguma permite que um policial vá sozinho para o presídio e levar uma pessoa, porque é um risco muito grande”.

Giraldi critica modelo de atendimento remoto

Outro ponto questionado pelo delegado foi o sistema de atendimento por meio da chamada “macro”, no qual um delegado pode atender ocorrências de outras cidades de forma remota. “Não funcionou no passado, eu já falei a toda a chefia da polícia, e eu sou contra”.

Para Giraldi, a presença física do delegado é importante para a avaliação de situações que podem resultar em uma prisão.

Ele citou um caso de roubo em que ele e outro delegado analisaram as informações e decidiram pela liberação de um homem que havia sido preso. “A nossa sensibilidade do delegado André foi de liberar esse indivíduo, porque a gente tinha dúvida, e na dúvida tu não pode botar uma pessoa na cadeia”.

Na avaliação de Giraldi, o contato direto com vítimas, testemunhas e suspeitos ajuda o delegado a tomar decisões. “Eu sou do tipo, pode me chamar de antigo, pode me chamar de ultrapassado, mas eu gosto de conversar com a vítima, conversar com o agressor, conversar com as testemunhas para ter aquela sensibilidade de estar realmente mandando para o presídio uma pessoa que realmente naquele momento estava sob situação de flagrância”.

Delegado alerta para riscos de erros em reconhecimentos

O reconhecimento de suspeitos também foi abordado durante a entrevista. Giraldi classificou o procedimento como uma das situações mais delicadas dentro da investigação criminal. “É o instituto mais perigoso do direito, o reconhecimento”.

Segundo ele, o reconhecimento precisa seguir critérios e não pode ser tratado simplesmente como a indicação de uma pessoa em uma fotografia ou imagem. “O reconhecimento ele tem a sua forma de ser reconhecida, não é uma fotografia”.

O delegado afirmou que existem casos em que pessoas podem ser confundidas com outras por semelhanças físicas ou características dos veículos utilizados. “Às vezes só o reconhecimento condena uma pessoa, mas tem que ser um reconhecimento sério”.

Ele reforçou que um erro desse tipo pode ter consequências graves. “É um erro que não tem conserto”.

Alerta contra acusações e “justiça pelas próprias mãos”

A discussão também chegou às redes sociais e a relatos sobre um suposto assediador que estaria circulando de motocicleta em Araranguá. Giraldi demonstrou preocupação com a possibilidade de alguém ser confundido com o suspeito e sofrer algum tipo de agressão.

“Nós temos que tomar muito cuidado, porque daqui a pouco, algum valentão, alguma pessoa, querendo fazer justiça, encontra uma pessoa com as características físicas semelhantes ou parecidas lá, parado, e aí pode haver uma justiça privada”.

O delegado orientou que situações suspeitas sejam comunicadas oficialmente às autoridades. “Por isso que eu peço para as pessoas fazer ocorrência policial, mesmo que seja de uma forma virtual. Isso vai aparecer na delegacia, vai aparecer uma descrição, a gente tem como investigar, buscar informações, para chegar ao verdadeiro autor”.

Segundo ele, acusações divulgadas nas redes sociais sem elementos concretos não substituem uma investigação policial. “Só ir para as redes sociais fazer barulho e não juntar alguma coisa concreta, não dá, não é o suficiente”.

Falta de policiais é apontada como principal dificuldade

Questionado sobre as condições de trabalho, Giraldi afirmou que: “O principal problema atualmente não é a falta de equipamentos, mas o número reduzido de policiais. Material nós temos”.

O problema, segundo ele, está no volume de tarefas concentrado em um número pequeno de servidores. “O nosso contingente policial, eu acho que uma central de polícia que atende 15 minutos, eu tenho aqui seis policiais, mais ou menos nessas condições”.

Giraldi explicou que, além de receber presos, os policiais precisam realizar revistas, atender vítimas, receber ocorrências e prestar informações. “O policial está na delegacia, ele recebe o preso e ele tem a obrigação de fazer uma revista minuciosa”.

Ele também relatou que os policiais precisam lidar com situações simultâneas. “Ele tem que atender às vezes a vítima, tem que atender a Polícia Militar e às vezes chega a duas, três ocorrências, aí gera um tumulto”.

Legalidade deve ser observada nas prisões

O delegado também defendeu que as decisões de prisão precisam respeitar os critérios previstos na legislação. “Nós temos que primar pela legalidade da prisão, não é simplesmente prender, prender dentro das normas legais de acordo com o Código de Processo Penal”.

Giraldi explicou que uma pessoa pode ser liberada quando não existem elementos suficientes para justificar a prisão. “Às vezes o delegado de polícia libera o preso e às vezes até tem pessoas que saem descontente, mas por que foi liberado? Foi liberado porque não havia situação de flagrância e também que não havia indícios suficientes da autoria”.

Ele voltou a citar o caso de Maracajá para defender a necessidade de cautela. “As redes sociais fazem aquela baderna toda, o problema é que isso é jogado nas redes sociais de uma forma muito apressada para tentar dar uma solução e a rede social não dá solução para nada”.

Anteprojeto busca combater abandono de animais

Na condição de vereador, Jorge Giraldi apresentou um anteprojeto relacionado à causa animal. A proposta, segundo ele, busca responsabilizar e envolver imobiliárias e proprietários de imóveis no combate ao abandono de animais domésticos.

A ideia surgiu a partir da percepção de que algumas pessoas mudam de endereço e deixam cães e gatos para trás. “Eu percebo que muitas vezes o indivíduo vem de fora, traz animais domésticos, cães e gatos, e no momento que ele está se mudando de endereço ou mudando para outra cidade, o que ele faz? Ele abandona os animais dentro do imóvel ou solta”.

Segundo Giraldi, a proposta prevê que informações sobre os animais sejam registradas no contrato de locação. “No momento que aquele indivíduo for à imobiliária, o agente, o funcionário imobiliário, no redigir o contrato, ele vai colocar uma cláusula”.

A intenção é que, no encerramento do contrato, seja possível verificar o destino dos animais que estavam sob responsabilidade do inquilino. “No momento que ele sai, o locatário, o locador ou o representante da imobiliária vai lá e pergunta: ‘Esses cães aqui, onde é que estão? O senhor tinha quatro animais. Agora só tem um, ele morreu?’”.

O vereador defende que, caso fique comprovado o abandono, o responsável possa ser identificado e responsabilizado. “Mesmo que a pessoa solte e depois se suma, a gente tem uma qualificação daquela pessoa para puni-lo, mesmo que ele estando fora, por abandono de maus-tratos de animais”.

Proposta também chama atenção para locações particulares

Durante a entrevista, Giraldi afirmou que a preocupação não deve ficar restrita às imobiliárias.

Segundo ele, pessoas que alugam imóveis diretamente também precisam adotar cuidados antes de entregar uma propriedade. “Todas as pessoas, mesmo a imobiliária, e as pessoas que locam o imóvel, mesmo a nível particular, têm que ter essa paciência, essa cautela de exigir”.

O delegado e vereador relacionou a questão da locação também à segurança pública, defendendo que proprietários tenham atenção sobre quem está ocupando seus imóveis. “Então, as pessoas que convivem em sociedade têm que ter essa cautela”.

Sociedade também deve assumir responsabilidade

Para Giraldi, o poder público não pode ser responsabilizado sozinho pela solução de todos os problemas da cidade. “Nós como vereadores, nós temos que chamar a responsabilidade também, não só, ‘ah, porque é o prefeito, a prefeitura, a prefeitura’. Não, para aí, chama a responsabilidade a sociedade civil, que tem o dever de zelar pela harmonia, pela paz”.

O vereador também defendeu que a população acompanhe o trabalho dos gestores públicos e avalie os resultados das administrações. “Então, vamos ver as pessoas que realmente trabalham, trabalham de longo tempo, que conhecem a realidade de Araranguá”.

Denúncias podem ajudar investigações

Ao final da entrevista, Giraldi orientou a população sobre como encaminhar denúncias às autoridades.

Segundo ele, em determinadas situações, é possível realizar uma denúncia anônima, especialmente quando já existem elementos concretos que demonstram a ocorrência de um crime. “Existem aquelas situações que a pessoa pode encaminhar uma denúncia anônima, no momento em que já foi identificado o ato criminoso”.

Ele citou como exemplo situações de abandono de animais ou descarte irregular de materiais que tenham sido registrados por imagens. “Um abandono de animais, um depósito de lixo, desde que haja imagem, a pessoa contra a imagem não tem argumento”.

Por outro lado, Giraldi explicou que denúncias envolvendo crimes de natureza sexual exigem atenção especial e, dependendo da situação, a identificação de uma vítima. “Agora, no momento que há um ataque de conotação sexual que é muito perigoso, então a pessoa tem que haver uma vítima”.

O delegado reforçou que as redes sociais podem servir como instrumento para disseminação de informações, mas não substituem os procedimentos formais de investigação. “Só ir para as redes sociais fazer barulho e não juntar alguma coisa concreta, não dá, não é o suficiente”, concluiu.