Política Da tainha à linguiça Blumenau: decisões de Brasília provocam revolta em Santa Catarina

Da tainha à linguiça Blumenau: decisões de Brasília provocam revolta em Santa Catarina

09/06/2026 - 09h04

Duas das mais tradicionais atividades de Santa Catarina voltaram ao centro do debate público nos últimos dias: a pesca da tainha e a produção da tradicional linguiça Blumenau. Para o analista político Upiara Boschi, os dois casos têm um ponto em comum: a interferência da burocracia federal sobre atividades históricas e culturais do estado.

Segundo Boschi, tanto a suspensão da pesca da tainha quanto a polêmica envolvendo a composição da linguiça Blumenau revelam dificuldades de diálogo entre órgãos governamentais e setores produtivos.

No caso da pesca, pescadores catarinenses comemoravam uma safra considerada excepcional quando receberam a determinação do Ministério da Pesca para interromper a atividade, após o atingimento de 90% da cota estabelecida para a captura.

A medida reacendeu uma discussão que já havia provocado controvérsias no ano passado. O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, criticou a decisão e prometeu buscar alternativas. O mesmo posicionamento foi adotado pelo prefeito de Florianópolis, Topázio Neto.

Já em Blumenau, a discussão gira em torno da tradicional linguiça que leva o nome da cidade. Uma determinação ligada ao Ministério da Agricultura apontou que o produto deveria seguir regras aplicadas a outros embutidos, limitando o teor de gordura a 30%. O problema é que a receita tradicional da linguiça Blumenau possui cerca de 42% de gordura, característica responsável por sua textura e sabor peculiares.

Para Boschi, a situação gera uma contradição. Enquanto um setor do governo federal reconhece e certifica produtos de origem justamente pela preservação de suas características históricas, outro órgão acaba exigindo mudanças que alterariam a receita tradicional.

A polêmica ganhou repercussão estadual após manifestações de empresários e lideranças políticas, entre eles o empresário Luciano Hang, que se posicionou contra alterações na composição do produto. Diante da repercussão, o governo catarinense revogou uma resolução relacionada ao tema.

Para o comentarista, os dois episódios demonstram que o problema vai além de disputas partidárias ou ideológicas.

“São duas questões diferentes, mas similares. Seja a burocracia sanitária, seja a burocracia ambiental, colocando limites para a vida prática. A pesca da tainha, tão tradicional em Santa Catarina, e a linguiça Blumenau acabam enfrentando obstáculos que poderiam ser resolvidos com diálogo”, observou.

Boschi defende uma atuação mais preventiva das lideranças políticas para evitar que impasses burocráticos cheguem ao ponto de afetar produtores, pescadores e consumidores. Segundo ele, os canais institucionais entre governo estadual, ministérios e representantes políticos deveriam funcionar antes que os conflitos ganhem repercussão pública.

“O Ministério da Agricultura e o Ministério da Pesca têm canais de diálogo. Não é possível ficar esperando os burocratas atrapalharem a vida das pessoas na ponta enquanto os políticos transformam isso numa disputa sobre quem está certo ou quem faz o vídeo mais indignado nas redes sociais”, afirmou.

Ao concluir sua análise, Upiara Boschi manifestou expectativa de que prevaleça o entendimento entre os diferentes níveis de governo.

“Fico na esperança de que, tanto na questão da tainha quanto na questão da linguiça Blumenau, o bom senso volte à mesa. Não é na rede social que se discute isso. Espero que voltem para a mesa das autoridades, dos eleitos e não dos burocratas de sempre”, concluiu.

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