Política Seminário Estadual de Autismo reúne especialistas e reforça compromisso do Parlamento com a inclusão escolar

Seminário Estadual de Autismo reúne especialistas e reforça compromisso do Parlamento com a inclusão escolar

13/08/2026 - 14h32

Santa Catarina possui cerca de 91,6 mil pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população do Estado. Desse total, 62,6% são do sexo masculino, com forte concentração em municípios como Joinville e Florianópolis.

O Estado também conta com legislação específica de apoio às pessoas com autismo, além da emissão gratuita da carteira de identificação e de programas voltados à inclusão.

Os dados da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) ajudam a dimensionar a importância do Seminário Estadual de Autismo, realizado nesta quarta-feira (12), no Auditório Deputada Antonieta de Barros, no Palácio Barriga Verde, em Florianópolis.

A iniciativa é coordenada pela Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e pela Escola do Legislativo Deputado Lício Mauro da Silveira da Alesc e tem como objetivo capacitar profissionais da educação e fortalecer as políticas de inclusão escolar para estudantes com TEA.

Ao longo do dia, especialistas compartilham conhecimentos, experiências e estratégias relacionadas a um dos grandes desafios da educação contemporânea: transformar o direito à inclusão em práticas efetivas dentro da sala de aula.

A proposta é ampliar o conhecimento dos profissionais sobre as características do autismo e oferecer ferramentas que contribuam para a aprendizagem, a autonomia e o desenvolvimento integral dos estudantes da educação básica.

O evento também aproxima conhecimento científico, experiência profissional e realidade das famílias, reforçando a importância da formação continuada dos educadores.

Atendimento às pessoas com autismo ainda enfrenta filas

Presidente da Federação das Associações de Amigos do Autista de Santa Catarina (Feamas-SC), Catia Cristiane Purnhagen Franzoi destacou a importância do seminário para a disseminação de informações e para o fortalecimento do atendimento às pessoas com autismo.

Segundo ela, a capacitação dos profissionais pode contribuir diretamente para melhorar o trabalho desenvolvido nas instituições e, consequentemente, o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos com TEA.

“Nós precisamos cada vez mais levar a informação e, com isso, conseguir desenvolver um trabalho consistente para o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos com autismo.”

Catia também ressaltou a qualidade dos especialistas convidados e a possibilidade de transformar o conhecimento apresentado durante o seminário em práticas aplicáveis no cotidiano das instituições e das salas de aula.

Entre os principais desafios enfrentados atualmente em Santa Catarina, a presidente da Feamas-SC aponta a necessidade de ampliar a oferta de atendimento e reduzir as extensas filas de espera.

A dimensão do problema aparece nos números apresentados por Catia. Em Balneário Camboriú, onde atua, são aproximadamente 500 crianças aguardando atendimento.

Em Itajaí, segundo informações repassadas à entidade, a fila chega a cerca de 1,2 mil crianças. Além das filas por atendimento, há também famílias aguardando pelo diagnóstico de autismo.

A presidente da Feamas-SC informou ainda que a federação possui aproximadamente 32 Associações de Amigos do Autista (AMAs) cadastradas, enquanto outras cerca de 30 entidades, recém-criadas, recebem suporte para buscar o credenciamento e integrar a rede.

Inclusão exige estratégias individualizadas

A atual presidente da AMA Florianópolis (Associação de Pais e Amigos do Autista de Florianópolis), Daniela Dias Steindorff, reforça a avaliação de Catia sobre a importância de ampliar o conhecimento e qualificar o atendimento às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Mãe atípica e há anos atuante na defesa dos direitos, da inclusão e da acessibilidade da população autista na Capital, Daniela destaca que a experiência cotidiana com pessoas autistas mostra que não existem soluções padronizadas para o autismo.

A presidente da AMA Florianópolis ressalta, assim, que a formação de profissionais e a troca de experiências são fundamentais para que a inclusão aconteça de maneira efetiva.

Mais do que discutir conceitos sobre o autismo, é preciso transformar conhecimento em práticas capazes de responder às necessidades de cada pessoa.

A participação de Daniela no seminário também representa a voz das famílias que, há décadas, acompanham de perto os desafios da inclusão e da garantia de direitos.

Neurociência e aprendizagem individualizada

A palestra “A Arquitetura do Aprendizado: Autismo, Neurociência e DUA”, ministrada pelo professor e especialista em autismo Eugênio Cunha, abriu a agenda de trabalho do evento.

O professor abordou a aprendizagem de crianças e adolescentes com TEA no ambiente escolar.

Segundo o especialista, a proposta é aproximar conhecimentos contemporâneos da neurociência das práticas pedagógicas, utilizando também os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).

Para Eugênio, um dos pontos centrais da inclusão é compreender que não existe uma única forma de aprender. No caso do autismo, essa individualização precisa ser ainda mais considerada.

“Cada criança autista é uma criança autista. Cada adolescente autista é um adolescente autista. A gente tem que primar pela possibilidade de criar estratégias diferenciadas.”

O desafio, segundo ele, está justamente em personalizar o processo de aprendizagem em um ambiente escolar marcado pela diversidade.

A perspectiva das famílias sobre a inclusão

A experiência das famílias também ocupa espaço central no seminário. Alessandra Couto Vieira, mãe de Tiago, de 18 anos, autista, participou do evento destacando a importância de transformar o conhecimento adquirido pelos profissionais em ações concretas dentro das famílias e das instituições.

Além de mãe, Alessandra atua como coordenadora da AMA Navegantes, acompanhando de perto as demandas de profissionais e famílias.

Conhecimento científico aliado à prática pedagógica

A programação do seminário reúne especialistas para abordar diferentes dimensões da aprendizagem e da inclusão de estudantes autistas.

Entre os temas estão neurociência, Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), estratégias baseadas em evidências, comunicação, habilidades motoras, processamento sensorial e autorregulação.

No período da tarde, Claudia Sabatini apresentou duas palestras. A primeira, “Dos Preditores ao Desempenho Escolar: Estratégias Baseadas em Evidências para o Aluno Autista”, aborda ferramentas que podem auxiliar no acompanhamento e no desenvolvimento escolar.

Na sequência, ela apresenta “Neurociência da Aprendizagem e Práticas e Recursos Pedagógicos para Inclusão do Aluno com Autismo: Da Teoria à Sala de Aula”, aproximando os conhecimentos científicos das estratégias utilizadas no cotidiano escolar.

Inclusão para além da sala de aula

A programação também contempla aspectos que ultrapassam o conteúdo pedagógico. O especialista Fernando Calil apresenta as palestras “Da Regulação à Aprendizagem: O Papel da Comunicação, das Habilidades Motoras e do Processamento Sensorial na Inclusão Escolar” e “Neurociência da Autorregulação: Como Compreender o Corpo para Prevenir e Manejar Crises”.

Os temas reforçam a necessidade de compreender o estudante de forma integral, considerando suas diferentes formas de comunicação, interação, percepção e resposta aos estímulos do ambiente escolar.

Encerrando a programação, Sabrina Padilha apresenta “Em Nome do Filho: A Jornada da Maternidade Atípica”. A abordagem coloca no centro do debate a perspectiva das famílias, especialmente das mães que vivenciam diariamente os desafios relacionados ao diagnóstico, à educação e à garantia dos direitos dos filhos.

Parlamento fortalece debate sobre inclusão e políticas públicas

Ao reunir profissionais da educação, especialistas e representantes da sociedade para discutir o autismo, o Seminário Estadual amplia a compreensão sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com TEA e suas famílias.

Mais do que um espaço de capacitação, o evento fortalece o diálogo entre ciência, educação, famílias e poder público, contribuindo para a construção de uma sociedade mais inclusiva.

A realização do seminário pelo Parlamento catarinense reforça, ainda, o papel da instituição como espaço de debate de temas que impactam diretamente a vida da população e de estímulo à formulação e ao aprimoramento de políticas públicas.

No caso do autismo, a discussão sobre inclusão escolar é especialmente relevante. Garantir acesso à escola não significa apenas assegurar matrícula, mas criar condições para que cada estudante possa aprender, participar e desenvolver seu potencial, respeitando suas características e necessidades individuais.

Direitos e políticas de apoio às pessoas com autismo

Entre as medidas de apoio às pessoas com TEA em Santa Catarina está a Carteira de Identificação do Autista, emitida gratuitamente pela Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) e destinada a garantir atendimento prioritário em serviços públicos e privados.

O Estado também possui leis e iniciativas voltadas à garantia de atendimento especializado e à proteção dos direitos das pessoas com autismo, reforçando a necessidade de articulação permanente entre poder público, instituições especializadas, profissionais, famílias e sociedade.

Fonte: Alesc