Crime contra Jadna foi meticulosamente planejado e investigação leva à identificação de mandante e executor
Mais de dois meses após o feminicídio que chocou Araranguá, a Polícia Civil concluiu a investigação de um dos casos mais complexos já conduzidos pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI). Na manhã desta sexta-feira (26), a delegada Eliane Chaves detalhou o trabalho investigativo que resultou na identificação e responsabilização do mandante e do executor do assassinato de Jadna Custódia Ferreira Vieira, de 55 anos.
Jadna foi brutalmente atacada no dia 15 de abril, dentro de sua residência, no bairro Urussanguinha. O autor do crime se apresentou como um suposto interessado na compra do imóvel. Após conseguir entrar na casa, desferiu dez golpes de faca contra a vítima. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital.
Segundo a delegada, desde o início a investigação apontava que o crime não tinha motivação patrimonial.
“Quando ele acabou fazendo essa abordagem a ela, ele já estava muito ciente do que iria fazer. Pelo fato de não ser um crime patrimonial nós passamos a ver quais eram as possibilidades”, explicou.
A partir dessa constatação, a DPCAMI passou a trabalhar em conjunto com a Divisão de Investigação Criminal (DIC). Como Jadna possuía medidas protetivas contra o ex-marido e um familiar, ambas as linhas passaram a ser investigadas.
As diligências revelaram a ligação entre o executor e o ex-marido da vítima. Conforme Eliane Chaves, o autor material do crime é considerado de alta periculosidade.
“O executor é uma pessoa de alta periculosidade, passou 20 anos preso e foi solto há menos de um ano. Ele estava frequentando um projeto chamado Alvorada e o ex-marido da Jadna trabalhava neste projeto. Ali eles tiveram o primeiro contato. De forma até irônica, o ex-marido da Jadna tinha a função de mentor do autor.”
Paralelamente ao surgimento dessa relação, a polícia constatou que diversos processos judiciais envolvendo o ex-marido avançavam na Justiça.
“Ele já havia sido denunciado por cárcere privado, ameaça e injúria contra a Jadna. Também foi denunciado por estupro de vulnerável e avançavam questões de guarda e patrimoniais. Tudo isso aconteceu exatamente no mesmo período em que ele passou a exercer essa mentoria com o executor do crime.”
Outro elemento decisivo foi a movimentação financeira identificada durante a investigação.
“Descobrimos que, a partir do final de dezembro, o autor começou a aparecer adquirindo bens. Comprou um carro pagando parte em dinheiro, adquiriu um barco e fez outras movimentações financeiras. Também recebemos a informação de que o pai do ex-marido havia sacado um valor alto em dinheiro, algo bastante incomum.”
Com o conjunto de provas, a Polícia Civil solicitou a prisão temporária do ex-marido, cumprida apenas 12 dias após o crime, em 27 de abril. Enquanto isso, o executor já havia fugido da região.
“Houve algumas tentativas de cumprir o mandado, mas ele conseguiu fugir. Estava próximo da fronteira e, segundo ele, pretendia ir para a Colômbia.”
Uma força-tarefa envolvendo policiais da região de fronteira levou à captura do suspeito no município de Capitão Leônidas Marques, no Paraná, em 30 de abril. Ele utilizava documentos falsos.
A equipe da DPCAMI foi até Cascavel para realizar pessoalmente o interrogatório.
“Conversamos com ele. Formalmente ele não se manifestou, mas informalmente nos contou muita coisa.”
Mesmo após as prisões, as investigações continuaram. A delegada explicou que o objetivo era esclarecer completamente todas as circunstâncias do feminicídio.
“Parece que tinha terminado aí, mas era um tipo de feminicídio complexo e incomum. Não foi deixado nada para trás. O inquérito tem mais de mil páginas e foram ouvidas mais de 20 pessoas.”
Durante o andamento do inquérito, outras duas pessoas chegaram a ser presas temporariamente para aprofundamento das investigações. No entanto, a participação delas não foi comprovada.
“Não adiantaria encerrar o inquérito sem que a conclusão ficasse realmente muito clara. Não tivemos comprovação da participação dessas duas pessoas. Portanto, não foram indiciadas.”
A investigação também confirmou que o criminoso monitorava Jadna antes da execução.
“O executor já estava monitorando a vítima se apresentando como interessado na compra do imóvel. Então ele entrou na casa da vítima como um comprador. A situação que aconteceu no entorno da Jadna foi algo muito bem planejado.”
Ao final da investigação, a Polícia Civil indiciou Fábio Zago Demétrio como autor imediato do feminicídio e concluiu que o assassinato foi cuidadosamente arquitetado, reunindo um robusto conjunto probatório para responsabilizar os envolvidos.











