Ponte Anita Garibaldi: deputado revela que documentos essenciais da obra seguem desaparecidos e cobra respostas do DNIT (VÍDEO)
Parlamentar revela que concessionária aponta problemas estruturais desde 2022 e afirma que documentos considerados essenciais para análise da ponte ainda não foram localizados
A situação da Ponte Anita Garibaldi, em Laguna, voltou a ser tema de debate na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). Em pronunciamento na tribuna, o deputado estadual Mário Motta (PSD) apresentou uma série de documentos públicos e oficiais relacionados à estrutura e levantou questionamentos sobre a falta de acesso a registros considerados fundamentais para compreender os problemas que levaram à interdição da ponte.
Segundo o parlamentar, sua equipe iniciou uma análise documental logo após o fechamento da estrutura, ocorrido no último dia 9 de julho. “Desde o seu fechamento, no último dia 9, a nossa equipe iniciou imediatamente uma busca e uma fiscalização documental baseada exclusivamente em documentos públicos e documentos oficiais. E é exatamente isso que eu apresento a partir de agora nessa tribuna”, afirmou.
Problema foi comunicado à ANTT antes da interdição
Durante a apresentação, Motta revelou que a concessionária responsável pela rodovia comunicou oficialmente à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em 25 de junho deste ano, a necessidade de restringir o tráfego de cargas especiais sobre a ponte.
“A concessionária comunicou oficialmente à ANTT a necessidade de restringir, por aproximadamente seis meses, o tráfego de cargas especiais superiores a 10 toneladas por eixo até a conclusão do diagnóstico estrutural da ponte”.
Segundo o documento citado pelo deputado, a medida foi motivada pela identificação de uma abertura de 2,5 milímetros entre aduelas, segmentos estruturais que compõem a ponte, em uma das regiões próximas à torre sul.
Contudo, a situação se agravou poucos dias depois. “Em novo ofício encaminhado à ANTT, a concessionária informou que novos resultados de ensaios obtidos em 8 de julho identificaram o rompimento de cabos de proteção na junta entre as aduelas 06 e 07 do vão 35 central”.
Foi a partir dessa constatação que ocorreu a interdição total da estrutura. “Por esse motivo, a Ponte Anita Garibaldi está interditada pelo menos até o dia 20 de julho. E mesmo após a sua reabertura, se isso ocorrer naquela data, permanecerá a previsão de tráfego liberado de forma restrita”.
Problema atual já havia sido registrado em 2022
Um dos pontos mais destacados pelo deputado foi a constatação de que a região atualmente afetada já apresentava problemas estruturais há quase quatro anos.
Segundo Motta, documentos de outubro de 2022 registraram anomalias justamente no mesmo trecho da ponte. “Um ofício de outubro de 2022 já registrava a ocorrência de anomalias no mesmo local”.
O parlamentar leu trechos do relatório técnico da época, que apontavam abertura entre aduelas e o rompimento completo de barras estruturais. “Verificou-se a abertura entre aduelas 06, 07, 014 e 015 do vão central 35, bem como nas aduelas 08 e 09 do vão central 35. Além disso, verificou-se o completo rompimento das quatro barras que ligam a laje inferior entre as aduelas 06 e 07”.
Na ocasião, intervenções emergenciais precisaram ser realizadas. “Naquele momento, em outubro de 2022, intervenções emergenciais foram necessárias para restabelecer a segurança da estrutura. Portanto, menos de quatro anos depois, a principal região estrutural afetada em 2022 volta a exigir novas intervenções”.
Fiscalização busca respostas, não culpados
Ao abordar o papel da Assembleia Legislativa no caso, o deputado ressaltou que o objetivo não é apontar responsáveis antecipadamente, mas garantir transparência e esclarecimentos.
“Nosso dever não é produzir perícias, não somos peritos, nem apontar supostos culpados. Culpa pressupõe dolo. Mas responsabilidade, sim. Nosso dever é fiscalizar, reunir documentos públicos e cobrar transparência e providências”.
Concessionária relata falta de documentos da construção
Um dos questionamentos mais contundentes apresentados por Motta envolve a ausência de documentos considerados essenciais para a análise da estrutura.
Segundo ele, em maio de 2023, a concessionária e uma empresa especializada contratada para estudar a ponte informaram oficialmente à ANTT que o chamado projeto “As Built”, documento que registra como a obra foi efetivamente executada, não continha informações suficientes para uma avaliação completa.
“A concessionária solicitou há três anos apoio da ANTT para localizar documentos essenciais da construção da ponte, documentos que detalhassem como ela foi construída e que permitiriam uma avaliação mais precisa das causas dos problemas estruturais”.
Entre os documentos citados estão:
– Projetos executivos;
– Registros de construção;
– Diários de obra;
– Boletins de campo;
– Relatórios de controle tecnológico;
– Informações sobre ajustes realizados durante a execução da estrutura.
Segundo o deputado, a própria concessionária reconhece a necessidade desses registros. “Essa necessidade não decorre da interpretação do nosso gabinete. Ela foi oficialmente reconhecida pela própria concessionária”.
Busca por documentos continua em 2026
Mário Motta também revelou que a busca por essas informações permanece em andamento. “Na ata da reunião realizada no último dia 6 de julho, a discussão retornou exatamente nesse ponto”.
De acordo com o parlamentar, o documento reforça a necessidade de localizar registros da construção da ponte para compreender melhor o comportamento estrutural da obra. “A própria concessionária registra que está buscando a documentação da Ponte Anita Garibaldi desde 2022 e não encontra”.
Diante desse cenário, o deputado lançou um questionamento direto. “Se essa documentação é considerada essencial há tanto tempo para compreender adequadamente como a ponte foi construída e o comportamento estrutural da ponte, por que ela ainda não foi integralmente localizada e disponibilizada pelo DNIT?”
Foto da construção levanta novos questionamentos
Outro ponto apresentado pelo parlamentar foi uma fotografia registrada durante a fase final da construção da ponte, quando os dois lados da estrutura se aproximavam para o fechamento do vão central.
Segundo ele, a imagem indica um aparente desnível significativo entre os dois segmentos. “Observem essa fotografia. Trata-se de uma imagem da fase final da construção, quando os dois lados se encontrariam no centro. Ela evidencia um desnível de pelo menos 60 centímetros no ponto de encontro das estruturas”.
Motta fez questão de destacar que não cabe ao Parlamento emitir conclusões técnicas sobre a fotografia. “Não cabe a esse Parlamento concluir quais circunstâncias levaram a esse desnível ou se as soluções adotadas foram adequadas ou não. Essa é uma atribuição dos engenheiros, dos peritos e dos especialistas”.
Entretanto, o deputado defendeu que as informações sejam esclarecidas por meio da documentação da obra. “O que cabe aqui é perguntar: que procedimentos foram adotados para permitir o fechamento correto desse vão? Quais cálculos os fundamentaram? Onde estão os registros técnicos capazes de comprovar essa etapa da obra?”
Apelo ao DNIT e à ANTT
Ao encerrar o pronunciamento, Mário Motta pediu que os órgãos responsáveis atuem para localizar e disponibilizar integralmente toda a documentação da construção da ponte.
“Quero concluir dirigindo-me à ANTT e ao DNIT. Por favor, empreguem todos os esforços para localizar, preservar e disponibilizar integralmente a documentação da Ponte Anita Garibaldi”.
O parlamentar informou ainda que protocolou uma moção de apelo direcionada aos dois órgãos e que avalia novas medidas institucionais. “A sociedade catarinense não espera especulações. Espera respostas o mais breve possível”, concluiu.









