Geral Flávio Roberto e Saulo Machado relembram trajetórias no rádio antes de receberem título de cidadão araranguaense, homenagem acontece nesta quarta

Flávio Roberto e Saulo Machado relembram trajetórias no rádio antes de receberem título de cidadão araranguaense, homenagem acontece nesta quarta

19/08/2026 - 09h32

Com décadas dedicadas à comunicação, profissionais recordaram os primeiros passos no rádio, a chegada em Araranguá, os desafios enfrentados e a transformação da cidade e da Rádio Araranguá ao longo dos anos

A história da comunicação de Araranguá passa por diferentes gerações de profissionais que ajudaram a construir a identidade do rádio no Extremo Sul de Santa Catarina. Entre esses nomes estão o apresentador Saulo Machado e o diretor executivo da Rádio Araranguá, Flávio Roberto, que nesta quarta-feira, dia 19, serão homenageados pela Câmara de Vereadores de Araranguá com o título de Cidadão Araranguaense.

Antes da solenidade, os dois protagonizaram um momento diferente durante o programa Dia a Dia. Acostumado a entrevistar convidados, Saulo assumiu também o papel de entrevistado e conduziu, ao lado de Flávio, uma conversa marcada por lembranças, histórias de bastidores e episódios que ajudam a contar parte da trajetória da comunicação no Sul Catarinense.

A conversa começou justamente pela história de Flávio Roberto, natural de Esmeralda, no Rio Grande do Sul, e que teve no rádio uma influência ainda na infância.

O rádio entrou na vida de Flávio ainda na infância

Flávio contou que é o mais velho de três irmãos e que foi criado pelo avô. A mudança para Caxias do Sul foi determinante para o início de sua relação com o rádio.

Segundo ele, o avô tinha o hábito de acordar muito cedo e ligar o aparelho de rádio, o que acabou despertando sua curiosidade. “Meu avô tinha o hábito de acordar muito cedo e ligar o rádio. E o rádio ficava do outro lado da parede do meu quarto. Então, quatro e meia, cinco, ele já estava batendo chaleira. Não tinha como ficar dormindo.”

A emissora que fazia parte daquela rotina era a Rádio São Francisco, de Caxias do Sul. Flávio passou a frequentar os estúdios e o auditório da rádio para acompanhar de perto os comunicadores.

“Eu fui internalizando essa audiência, né? A tal ponto que eu achava uma coisa assim, fora do comum. Como é que aquele caixão ali tinha a voz ali? Como é que aquilo falava? Eu queria ver o fundo do rádio por dentro, como é que era.”

A curiosidade de criança acabou se transformando em profissão. Ainda jovem, Flávio recebeu um convite para fazer um estágio na implantação da São Francisco FM, experiência que considera seu primeiro contato efetivo com os bastidores da radiodifusão. “Ali eu tive o primeiro contato, lá na base do rádio, que é a operação.”

Da operação à locução e ao jornalismo

A trajetória de Flávio passou por diferentes funções dentro das emissoras. Em Vacaria, trabalhou na operação, transmissão externa, cobertura esportiva, programação musical e reportagem policial.

Ele relembrou as dificuldades e também as particularidades do rádio em uma época em que a tecnologia era muito diferente da atual. “Eu subi muito em poste pra levar os fios pra transmitir Sete de Setembro. Eu subi muito pra transmitir futebol.”

Também foi durante essa fase que ganhou o apelido que o acompanharia por um período: Flavinho Blau Blau. A história surgiu depois que uma música foi trazida dos Estados Unidos por um piloto da Varig e chegou à rádio antes mesmo de ser lançada oficialmente no Brasil. “Nós largamos aquela música ali e foi um chorá. E ali eu recebi o apelido de Flavinho Blau Blau.”

A experiência também o levou para o microfone. Ele passou a apresentar programas, fazer reportagens e trabalhar em diferentes horários, inclusive durante a madrugada.

A chegada a Araranguá

Um dos momentos mais marcantes da conversa foi a lembrança da chegada de Flávio a Araranguá. Ele contou que desembarcou na cidade em 29 de maio de 1986, durante o feriado de Corpus Christi.

Naquela época, segundo ele, Araranguá era muito diferente da cidade atual. “Araranguá na época não tinha o calçadão. A Getúlio Vargas não tinha o calçadão. O calçamento terminava ali na esquina do Colégio Estadual.”

Flávio chegou ao Extremo Sul já com experiência no rádio e procurou oportunidades profissionais. Inicialmente, encontrou resistência.

Ele contou que chegou a procurar emprego em outra emissora da região, mas ouviu que não havia espaço para profissionais vindos do Rio Grande do Sul. “Eu fui lá pedir emprego porque eu queria continuar no rádio. Era o que eu sabia fazer.”

A resposta, entretanto, não o fez desistir.

“Posteriormente, consegui uma oportunidade na própria Rádio Araranguá, que naquele período pertencia ao Grupo Freitas. A passagem inicial, porém, durou apenas três dias. E é isso que trabalhei três dias. Trabalhei três dias”.

O motivo foi um desentendimento com a direção da época. A situação, que poderia ter encerrado sua relação com Araranguá, acabou levando-o a outras experiências profissionais e, posteriormente, a um retorno à emissora.

De vendedor de rapadura a comunicador novamente

Depois do episódio, Flávio passou por um período vendendo doces e produtos de um depósito de familiares, experiência que acabou ajudando na aproximação com a comunidade local.

“Aí comecei a visitar de bar em bar, de armazém em armazém. E obviamente conhecendo melhor o povo da cidade, conhecendo as famílias, quem eram, os expoentes e tal.”

Ele também trabalhou na Rádio Cruz de Malta, em Lauro Müller, enfrentando longos deslocamentos para chegar ao trabalho e produzindo os chamados jornais falados.

Naquela época, a produção jornalística dependia de jornais impressos, escuta de outras emissoras e muita improvisação. “Naquela época, era tudo o Gillette Express.”

A brincadeira faz referência ao trabalho de recortar notícias dos jornais para montar o conteúdo que seria apresentado no rádio.

Flávio também recordou os limites tecnológicos daquele período. “A gente fazia rádio escuta naqueles Transglobe, né? De faixas ali. Pra tu ouvir Rádio Tupi.”

O retorno à Rádio Araranguá

Depois de outras experiências, Flávio voltou para a Rádio Araranguá, desta vez sob uma nova gerência. Foi também nesse período que começou a ampliar sua atuação junto à classe política e à comunicação institucional.

Ele participou de campanhas eleitorais e posteriormente trabalhou como assessor de imprensa, inclusive junto à AMESC. A experiência política, entretanto, também trouxe dificuldades e divergências.

Flávio afirmou que sua trajetória nunca foi marcada apenas por facilidades. “Não pensa que ser Saulo Machado e Flávio Roberto é só candura toda, que não é. Tem muitos problemas. Você enfrenta muitos problemas, você enfrenta muitas pessoas.”

Segundo ele, apesar das divergências e dos erros que podem ocorrer ao longo de uma trajetória profissional, sempre existiu a intenção de contribuir para o desenvolvimento da cidade. “A gente também pode ter errado ao longo desses anos todos, mas o que a gente sempre teve foi boa intenção de fazer essa cidade chegar onde está hoje.”

As dificuldades transformadas em oportunidades

Outro ponto destacado por Flávio foi a forma como momentos de dificuldade acabaram abrindo novos caminhos profissionais.

Depois de uma campanha política, por exemplo, ele criou a Flávio Roberto Propaganda, iniciando uma nova etapa profissional. “Aí criei a Flávio Roberto Propaganda.”

A agência teve como um dos primeiros anunciantes a Queveks, então comandada por Ademir Maçaneiro, relação que, segundo Flávio, se transformou em uma amizade de longa data.

Posteriormente, surgiu a Anunciarte Publicidade, criada por Flávio e Elias Pavani. “A empresa passou por diferentes projetos, incluindo publicações comerciais que, com o tempo, ganharam também conteúdo informativo”.

A relação com a política e a comunicação

A trajetória de Flávio também se entrelaçou com momentos importantes da política de Araranguá. Ele recordou campanhas eleitorais, períodos de assessoria de imprensa e a relação construída com diferentes lideranças.

Entre as histórias lembradas está a campanha de Neri Garcia, incluindo a eleição marcada pela diferença de apenas 54 votos.

Flávio também destacou transformações urbanas pelas quais Araranguá passou e lembrou o debate em torno da abertura de vias como a Getúlio Vargas e a Jorge Lacerda.

Para ele, a cidade que encontrou em 1986 tinha uma visão muito diferente sobre seu próprio potencial. “Eu vi essa cidade, mas não é possível, gente. Eles têm o Morro dos Conventos, eles têm praia logo aqui. É uma cidade bonita, bem traçada. Mas como é que pode não ver isso?”

Uma história que também se confunde com a Rádio Araranguá

Ao longo da conversa, Saulo e Flávio mostraram que suas trajetórias profissionais estão diretamente ligadas à história da Rádio Araranguá.

Foram décadas acompanhando mudanças tecnológicas, transformações na comunicação, diferentes gerações de profissionais e alterações na própria cidade.

Saulo lembrou que os dois se conheceram ainda no antigo prédio da emissora, em um período em que Flávio já desenvolvia seus projetos fora do rádio.

A relação profissional ganhou novos capítulos quando Flávio recebeu um convite para trabalhar novamente na emissora.

Ele recordou que Evaldo, então responsável pela rádio, estava insatisfeito com a programação que vinha de uma rede de São Paulo. Flávio sugeriu uma alternativa: a programação da Transamérica.

Algum tempo depois, veio o convite. “Pois então, eu estou te intimando para vir trabalhar comigo, não aceito não como resposta, porque em 30 dias nós temos que colocar a programação na Transamérica.”

Saulo resumiu a situação de maneira bem-humorada: “Então você não recebeu uma proposta de trabalho, você recebeu uma intimação do Evaldo.”

Flávio concordou e classificou aquele momento como decisivo: “Eu recebi uma intimação e diria que foi a melhor intimação que eu recebi.”

Homenagem reconhece décadas de contribuição

Durante o programa, ouvintes também participaram enviando mensagens e destacando a trajetória dos dois profissionais. Entre os comentários, muitos lembraram a importância de Saulo e Flávio para a comunicação regional.

A homenagem desta quarta-feira, portanto, representa mais do que o reconhecimento de duas carreiras individuais. O título de Cidadão Araranguaense chega depois de décadas de atuação de ambos na comunicação e de participação em diferentes momentos da história de Araranguá.

Ao relembrar suas trajetórias, Saulo e Flávio também revisitaram uma época em que fazer rádio significava subir em postes para realizar transmissões, recortar jornais para produzir o noticiário, buscar informações por outras emissoras e conquistar espaço em uma cidade que ainda começava a se transformar.

Histórias que, segundo eles, ajudam a explicar não apenas suas carreiras, mas também a própria evolução do rádio e de Araranguá.

E, entre lembranças e brincadeiras, ficou uma síntese feita pelo próprio Flávio sobre uma trajetória construída ao longo de décadas: “Aquelas dificuldades que se apresentavam, pra mim, na realidade, se tornaram oportunidades”.

Confira mais da trajetória de Flávio Roberto e Saulo Machado.