A carta de Jair, divulgada por Flávio, pode afetar o PL em Santa Catarina?
A divulgação de uma carta escrita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e publicada nas redes sociais por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, ampliou a tensão política dentro do Partido Liberal (PL) e provocou uma nova decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio, que teve como objetivo reforçar a unidade do bolsonarismo, também pode produzir reflexos na articulação do partido em Santa Catarina.
Segundo o analista político Upiara Boschi, a decisão do STF impede que Flávio Bolsonaro visite o pai durante o período da prisão domiciliar até depois do primeiro turno das eleições presidenciais, 90 dias para ser mais específico.
“A gente teve a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de proibir que Flávio Bolsonaro visite seu pai, Jair Bolsonaro, na prisão domiciliar. Ou seja, não vai poder vê-lo até depois do primeiro turno das eleições presidenciais.”
Antes da restrição, Flávio havia visitado o ex-presidente e divulgado uma carta em que Jair Bolsonaro defendia a união da direita em torno da pré-candidatura do filho à Presidência da República. No documento, Bolsonaro também afirmava que Flávio seria seu porta-voz político, numa tentativa de reduzir as divergências que surgiram após a saída de Michelle Bolsonaro do PL Mulher e das críticas públicas feitas por ela ao senador.
Para Upiara Boschi, o episódio deixa clara uma disputa interna que vem se aprofundando dentro do bolsonarismo.
“É essa divisão interna que a gente tem acompanhado. De um lado os filhos do Jair Bolsonaro, de outro a ala ligada a Michelle Bolsonaro e a Nicolas Ferreira, deputado federal. E o Valdemar da Costa Neto tentando equilibrar esse cenário. Em Santa Catarina o governador Jorginho Mello faz um papel parecido. Jorginho não é alinhado a nenhum grupo, mas tenta ficar bem com todos e tenta impedir que entre água no barco.”
A repercussão da publicação da carta também motivou uma reação do PT. O partido pediu ao Supremo a revogação da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, alegando descumprimento das medidas impostas pela Justiça. Alexandre de Moraes, porém, não acatou esse pedido.
“Alexandre não foi tão a fundo nessa questão, mas ele entendeu que quando Flávio Bolsonaro apresentou uma carta escrita de próprio punho por Jair Bolsonaro nas suas redes sociais, burlou a proibição que existe de que Jair Bolsonaro não use redes sociais mesmo que através de outras pessoas.”
Com Flávio impedido de visitar o pai pelos próximos 90 dias, a interlocução política do ex-presidente deverá ocorrer principalmente por meio de Carlos Bolsonaro, pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, que não está impedido de manter contato com Jair Bolsonaro.
“Agora com Flávio 90 dias afastado do pai, restringe ainda mais a participação de Jair Bolsonaro, nem mesmo como conselheiro direto de Flávio. Jair Bolsonaro vai ter acesso direto obviamente a Michelle Bolsonaro, mulher dele, e vai ter acesso eventual nas visitas de Carlos Bolsonaro, pré-candidato ao Senado aqui em Santa Catarina. O Carlos não está proibido de ver o pai e vai ser o principal interlocutor dele junto às lideranças do partido.”
Na avaliação do analista, embora a carta possa ter ajudado a reduzir a tensão entre lideranças bolsonaristas, ela não produziu efeito na construção de alianças para a disputa presidencial.
“Uma coisa que me chama bastante atenção nesse episódio de carta do Bolsonaro, que pode ter sido importante para diminuir a fervura ao redor das lideranças bolsonaristas, mas para conquistar aliados não fez nenhum efeito.”
Upiara destaca que o Republicanos divulgou uma nota negando qualquer acordo com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e indicando que a tendência é seguir o mesmo caminho da Federação União Progressista, permanecendo fora da aliança.
“Eles não só disseram que não estão acertados, como afirmaram que a tendência é o Republicanos não estar com Flávio Bolsonaro, seguindo assim os passos da Federação União Progressista. Se Republicanos e União Progressista estivessem com Flávio Bolsonaro, ele teria o dobro do tempo de televisão e de rádio do que Lula. Se não estiverem, isso vai ficar com uma paridade de armas.”
Para Santa Catarina, o cenário amplia o desafio do governador Jorginho Mello em manter a unidade do PL no Estado enquanto as disputas nacionais entre os diferentes grupos do bolsonarismo seguem influenciando os rumos da campanha eleitoral.









